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CREDIBILIDADE
JORNALÍSTICA?
Em tempos de grandes manifestações populares contra os problemas do
Brasil, a mídia brasileira foi duramente criticada. Para cada cartaz de
ataque ao sistema político havia outros, em igual número, direcionados aos
meios de comunicação. A democratização dos meios de comunicação virou uma
demanda socialmente relevante. As críticas às práticas jornalísticas são cada
vez mais frequentes. Seja pela opinião dada nas reportagens, seja pela
seleção dos temas noticiados. A confiança na ética jornalística ficou tão ruim
quanto a reputação dos partidos políticos. Obviamente, essas críticas não são
comentadas pela mídia dominante.
A moral do jornalista, enquanto reflexão sobre o próprio agir,
pressupõe a possibilidade de fazer seu trabalho de outras formas - sem coação.
De agir diferentemente. Requer, assim, alguma liberdade deliberativa. Como
não a encontramos totalmente (por critérios políticos e econômicos), podemos
dizer que a reflexão moral será tanto mais pertinente quanto maior for a
possibilidade de deliberação livre do agente. Assim, falar de moral no fazer
jornalístico é discutir sua possibilidade de atuação. É refletir sobre as
condições materiais de ação do jornalista e de deliberação profissional.
Indispensável, portanto, investigar sobre seus espaços de atuação dentro das
empresas jornalísticas.
Essa discussão remete o leitor para nossa história mais recente. A
da ditadura militar. Nesse caso da censura em países totalitários, a
liberdade do jornalista é vítima de agressões, juridicamente tipificadas ou
não. No entanto, outros tipos de coação estarão inexoravelmente presentes,
independentemente das normas jurídicas que regulamentem a profissão, bem como
da sua efetiva aplicação.
Assim, além desses fatores determinantes externos ao fazer
jornalístico, devemos investigar sobre os fatores propriamente jornalísticos
que limitam a liberdade deliberativa do profissional da notícia. A inserção
de preceitos de liberdade de imprensa em códigos de Ética, em manuais de
liberdades públicas e sua previsão constitucional não impedirão que as
coações próprias à dinâmica de um universo social específico e relativamente
autônomo como é o jornalístico se façam presentes.
Os discursos dos profissionais que são socialmente questionados por
seus trabalhos denunciam à exaustão um imperativo ético limitante dessa
liberdade deliberativa. A objetividade jornalística. Expressa dessa forma ou
por recursos metafóricos indicativos de correspondência como espelho ou
reflexo.
Cultura do simulacro, técnicas de construção do verossímil e efeito de
real são algumas expressões usadas pela doutrina para analisar o fazer
jornalístico, a produção da notícia e o que seus agentes pensam do próprio
trabalho. Esse tema ganha relevo com o aumento progressivo dos fatos
geradores de notícia, decorrente - em grande medida - do aumento da população
e da facilitação progressiva dos encontros entre agentes sociais. O assunto
se torna cada vez mais relevante em face da comentada possibilidade,
facultada pelas novas tecnologias, de tornar o relato de qualquer um acessível
rapidamente por qualquer um.
O aumento dos fatos geradores de notícia enseja um incremento
correspondente de notícias, reportagens, entrevistas e matérias informativas
em geral. Esperávamos que em face de um real cada vez mais complexo, o
profissional da notícia destacasse seu papel seletivo. A competência,
socialmente reconhecida, que tem de discriminar o fato jornalístico do fato
que não merece esse estatuto. Esperávamos que, ao falar do próprio trabalho,
o jornalista assumisse a responsabilidade de fazer surgir um jornal que era
pura possibilidade antes da sua intervenção. Uma possibilidade entre
infinitas outras, preteridas por ele. Responsabilidade de preterir. De
condenar a ocorrência ao não jornal. Hipótese não verificada. Pelo contrário.
Servindo-se das categorias jornalismo "opinativo",
"informativo" e "interpretativo", confina na primeira
categoria toda atribuição de valor. Assegura que nas outras duas o mundo
aparece, ou pelo menos deveria aparecer, tal como é.
Essa avalanche informativa só pode se dar em detrimento dos espaços
opinativos. No Brasil, essa tendência se acentuou após 1964. A censura e o
movimento de concentração das empresas jornalísticas, acabando com os
pequenos jornais políticos, contribuíram para esse fenômeno. A repressão a
opiniões "não gratas" desenvolveu junto aos diretores de jornais
"um sexto sentido" encarregado de captar as possíveis reações de
setores políticos e militares hipersensibilizados nessa matéria.
Principalmente quando a notícia fere os interesses dos barões da direita
neoliberal que sustentam econômica e ideologicamente a mídia.
Com o surgimento de outras ferramentas de comunicação, como os blogs e
as redes sociais (em especial o Facebook), o livre tráfego de informação
entre os cidadãos fez com que eles percebessem que a mídia não é tão ética e
democrática quanto aparenta ser. Pelos olhos da internet nos parece que 1964
ainda não acabou para o jornalismo impresso e televisivo.
Notícias são comparadas, fatos relevantes são divulgados e comentados
mesmo quando a mídia tradicional ignora. Hoje se divulgam cada vez mais
denúncias de esquemas de corrupção política envolvendo a mídia - compra de
matérias, fontes forjadas, uso de dinheiro público, propaganda política
velada, venda de influência, corrupção ativa e passiva de editores e
jornalistas. A situação não está ruim somente para os políticos...
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JOVENS
CONECTADOS E PREOCUPADOS COM SUAS REGIÕES
De
acordo com os resultados da 12ª
Edição da Pesquisa Empresa dos Sonhos dos Jovens, realizada de março a abril deste ano
pelas consultorias Cia de Talentos e Nextview People, a estatal Petrobras
mantém o primeiro lugar no ranking brasileiro em 2013. Porém, ao analisar
os resultados da pesquisa nas cinco regiões brasileiras em separado,
percebem-se algumas diferenças entre as respostas dos 52mil jovens , estudantes
e recém-formados, entre 17 e 26 anos, sobre as empresas dos seus sonhos.
Estas
diferenças são bem evidentes na região Sul do País, onde os jovens apontam
sonhar com quatro empresas que possuem forte atuação regional. A Gerdau, que
aparece em 10o lugar, tem a sede da companhia no Rio Grande do Sul – a empresa
teve inclusive seu presidente Jorge Gerdau Johannpeter, o bisneto do fundador,
citado como líder dos sonhos em 8º lugar. A Volvo, que ocupa o 3ª lugar,
instalou sua primeira fábrica brasileira no ano passado no Paraná. Outro
exemplo é o Grupo Boticário, em 5º lugar, que tem suas duas fábricas também no
Paraná. A Votorantim, em 8º, tem atuação regional, assim como em todo o País.
No Nordeste, a novidade fica por conta da Braskem, que ocupa a 7ª posição nesta região - a petroquímica opera algumas de suas unidades industriais nos estados da Bahia e Alagoas. Já a Procter & Gamble é mencionada tanto pelos jovens do Sudeste como do Norte. Além de possuir seis de suas fábricas nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, a multinacional de bens de consumo tem aumentado sua exposição como marca na mídia. Provavelmente, ter uma marca popular também seja a razão que levou a Coca-Cola a estar na 10ª posição no Norte. Vale observar também que, o Google, tem menos destaque no Norte que em outras regiões do país.
A análise destes rankings provoca uma reflexão acerca de como este público avalia o que estas empresas oferecem, ou seja, qual é o referencial que usam para formar suas opiniões. 23% destes jovens dizem que conhecem uma pessoa que trabalha ou trabalhou na empresa; 17% viram estas informações na imprensa ou blogs; 10% foram influenciados pelas redes sociais ou site da empresa; e, curiosamente, apenas 10% reconhecem que sua escolha é em razão dos produtos ou serviços. É importante observar que aqui não há grandes oscilações regionais.
Pioneiro na incorporação da visão estratégica na Gestão de Pessoas, o Grupo DMRH (do qual a Cia de Talentos faz parte), consegue aliar, há 25 anos, o que para muitos parece impossível: razão e emoção. Entre as soluções de RH providas pela empresa estão: diagnóstico, desenho e estruturação de processos, recrutamento, seleção e desenvolvimento de profissionais – do início de suas carreiras a posições de liderança. Para o Grupo DMRH, não basta simplesmente entregar o serviço solicitado. Sua responsabilidade para com os clientes, parceiros, colaboradores e profissionais avaliados é muito maior: está ligada à satisfação, ao sentido de realização e ao impacto dessesprocessos para candidatos e empresas. É por isso que ao longo de sua história tem conquistado reconhecimento por meio dos mais importantes prêmios da área, feito alianças importantes, e se tornou representante local da EMA Partners International. Para mais informações: www.dmrh.com.br
A Nextview People é uma empresa de pesquisa em Gestão e Desenvolvimento de Pessoas. Empresas são feitas, acima de tudo, por pessoas e entender as tendências que guiam seus comportamentos é fundamental. Seus produtos envolvem: pesquisas ADHOC (pesquisas e estudos produzidos a partir da necessidade e realidade do cliente); Inteligência de Mercado: estudos que fornecem um panorama atual do mercado de trabalho e das práticas que envolvem a Gestão e Desenvolvimento de Pessoas; e consultoria: produtos e serviços que garantem o compartilhamento de informações e do conhecimento produzido por meio dessas análises. Para mais informações: www.nextviewpeople.com.br
A viralização de filmes e o fácil acesso ao conteúdo em redes
sociais e sites como o Youtube deram ao mercado audiovisual um enorme potencial
a ser explorado. As empresas passaram a investir ainda mais em produção de
vídeos, não só publicitários, mas também institucionais, para fins
motivacionais ou exibição em eventos.
Esta metamorfose tem segmentado o mercado, abrindo espaço para
produtoras especializadas em conteúdo corporativo, com formatos de vídeo mais
customizáveis. A proposta destas empresas possuem diferenças estruturais e na
metodologia de trabalho, a começar pelo atendimento.
As produtoras de filmes publicitários são mais voltadas às
agências, baseadas no relacionamento entre seus profissionais. O briefing
coletado sobre a película a ser produzida já chega construído, com ideias bem
acabadas. Cabe a equipe diretiva do filme, desenvolver o projeto de forma
impecável, com muita criatividade na direção e muito cuidado com a estética.
Já as produtoras de vídeos corporativos, além de trabalhar com
diversos tipos de agências (publicidade, eventos, promoções, ativações, etc.),
também trabalham diretamente com as empresas, que costumam fornecer ideias
prematuras. O desafio é traduzir as necessidades do contratante em uma
linguagem audiovisual, pensando em todos os detalhes, do início ao fim da
produção. Embora mais trabalhoso esse processo permite maior liberdade aos
profissionais de criação.
Para filmes publicitários, o peso do diretor é muito maior, e as
agências procuram por nomes preferidos e premiados, independentemente de onde
estejam trabalhando. Para o vídeo corporativo, o nome do diretor não é
fundamental, o mais importante é que o profissional desempenhe seu papel
corretamente, além de ser essencial o desenvolvimento de um conteúdo com muita
qualidade.
Outra diferença fica com o orçamento. Com maior verba, a equipe
técnica para o trabalho publicitário é desmembrada e, consequentemente, muito
maior, quase “hollywoodiana”. Os custos de mídia são altíssimos, e o valor de
uma campanha chega a milhões. Como o conteúdo corporativo, em muitos casos, não
tem objetivo de inserção comercial, o investimento da empresa é muito menor, e
a produtora utiliza uma equipe reduzida, porém multidisciplinar. A maioria dos
profissionais é versátil, com experiências em diversas áreas de produção.
O cenário atual é favorável às produtoras corporativas. Elas
precisam estar preparadas para atender agências de publicidade, cada vez mais
presentes na Internet, que representa um meio com menor custo, mais interativo
e abrangente do que as mídias tradicionais. (Artigo
encaminhado ao Adnews por Philip Moss, sócio-diretor da Chá das 5,
produtora especializada em vídeos corporativos0
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A NUVEM EM TEMPOS DE CRISE
As empresas começam a procurar novas maneiras de economizar custos e despesas diante da crise econômica global. Apesar dos déficits não impactarem violentamente no Brasil, especialistas dizem que o País vive uma fase de desaceleração na economia. Nesse cenário, o empreendedorismo em Tecnologia da Informação (TI) tem se tornado um aditivo importante na viabilização de novas economias, levando as corporações a realizarem alternativas de trabalhos e serviços de forma mais barata e eficiente.
Diante deste cenário, na qual as instituições se munem para eventuais agravamentos econômicos, o cloud computing surge com uma das opções de investimento. A modalidade oferece economias de TCO (do inglês, Total Cost Of Ownership) entre 10% e 40%, devido principalmente a redução de ativos, servidores, licenças de software e questões relacionadas à energia das máquinas.
Uma das vantagens da computação em nuvem é o fato das empresas serem executadas com apenas alguns computadores e recursos da Internet. Além disso, a localização não é o principal indicador do sucesso ou fracasso de um negócio, já que a tecnologia pode ser usada a partir de qualquer ponto. O fator diferenciador da nuvem não é uma questão puramente econômica, mas também de acessibilidade, segurança, tempo de resposta e desempenho. O empresariado começa a esboçar uma confiança nos serviços em cloud e enxergam que não é apenas modismo, porém uma evolução na forma como gerenciam as suas informações.
Não bastando todos esses benefícios, o cloud computing também promove às empresas a facilidade de ampliar o uso da infraestrutura de TI e depois retroceder de acordo com as sua necessidade atual. Trata-se da elasticidade promovida por este modelo, que evita gastos desnecessários com máquinas que muitas vezes ficam ociosas e são utilizadas apenas em períodos específicos de grande demanda das empresas.
A computação em nuvem abre novas oportunidades para as empresas com acesso limitado a recursos, em momentos que a economia mundial mostra sinais de taxas de crescimento menores, mas oferece oportunidades para o uso de novas tecnologias aplicadas aos seus processos de negócios internos e externos. Não há como negar: o modelo veio para ficar e tende cada vez mais apresentar um ciclo crescente de possibilidades. (Por Felipe Munita, Diretor de Data Center & Cloud Computing da Sonda IT, integradora que provê soluções de tecnologia de ponta a ponta, abrangendo Aplicativos, Plataformas, SAP e Serviços de TI).
MTV ANUNCIA ÚLTIMA TRANSMISSÃO AO
VIVO. EM DETALHES
O fim de uma etapa está próximo para uma emissora que fez
história na televisão brasileira, sobretudo para a geração que vivenciou a
década de 1990. Nesta quinta-feira, dia 26 de setembro, às 18h, entrará no ar o
último programa ao vivo da MTV Brasil no prédio do Sumaré, em São Paulo. O
histórico edifício que sediou a pioneira TV Tupi e de onde a MTV transmitiu 23
anos de experimentações no canal aberto, será o palco dessa gravação
derradeira.
Durante seis horas, os artistas e VJs que fizeram parte desta história vão se apropriar do canal e ocupar o prédio. Todos que estiverem reunidos na sede da emissora nesta data poderão, ao vivo, pedir seus clipes favoritos, rever momentos marcantes da história da MTV Brasil, tocar, cantar, celebrar. Estão confirmados os shows de Marcelo D2 com ConeCrew Diretoria, Vanguart e Guilherme Arantes. Além de tudo isso, inúmeras câmeras espalhadas por todo o prédio vão filmar toda a movimentação, nem o elevador ficará de fora. A audiência acompanhará tudo ao vivo, até à meia-noite. (Redação Adnews)
Durante seis horas, os artistas e VJs que fizeram parte desta história vão se apropriar do canal e ocupar o prédio. Todos que estiverem reunidos na sede da emissora nesta data poderão, ao vivo, pedir seus clipes favoritos, rever momentos marcantes da história da MTV Brasil, tocar, cantar, celebrar. Estão confirmados os shows de Marcelo D2 com ConeCrew Diretoria, Vanguart e Guilherme Arantes. Além de tudo isso, inúmeras câmeras espalhadas por todo o prédio vão filmar toda a movimentação, nem o elevador ficará de fora. A audiência acompanhará tudo ao vivo, até à meia-noite. (Redação Adnews)
VIACOM
ANUNCIA ACORDOS COM MTV
A Viacom anunciou os acordos de
distribuição da MTV com a SKY, Net, Claro TV, Associação NEOTV, SimTV e VIACABO
para o lançamento da emissora na plataforma de TV por assinatura no Brasil em
1º de outubro. Novos acordos de distribuição serão anunciados em breve.
A nova MTV oferecerá uma combinação de conteúdo local -
incluindo shows diários, realities, séries, animações, música e esportes – além
de sucessos mundiais da MTV - como "Snooki & JWoww",
"Pranked", "Catfish" e a premiação musical
internacional “MTV EMA” feita sob medida para a audiência brasileira.
"Estamos animados com o fortalecimento da marca MTV no
Brasil, e estamos focados em conquistar a combinação certa de parceiros
criativos e estratégicos para dar todo o suporte necessário para o canal",
disse Sofia Ioannou, Diretora Geral da VIMN, The Americas. "As parcerias
com esses operadores-chave nos permitem lançar a MTV nas plataformas de mais
alta qualidade no Brasil, e comprovam a demanda pela marca neste mercado em
crescimento." (Redação Adnews)
A ÉTICA EMPRESADIAL
"O público que
se dane. Eu trabalho para os meus accionistas."
William Vanderbilt
William Vanderbilt
1. Introdução
A ética empresarial ocupa uma posição peculiar
no campo da ética aplicada. Tal como os seus equivalentes em profissões como a
medicina e o direito, consiste numa aplicação duvidosa de alguns princípios
éticos muito gerais (dever ou utilidade, por exemplo) a situações e crises
bastante específicas e muitas vezes únicas. Mas, ao contrário destas
aplicações, a ética empresarial trata de uma área do empreendimento humano
cujos praticantes, na sua maioria, não gozam de um estatuto profissional, e de
cujos motivos muitas vezes se pensa (e se diz) serem muito pouco nobres.
A cobiça (anteriormente avareza) é muitas
vezes citada como o único motor da vida empresarial, e muita da história da
ética empresarial é, consequentemente, pouco lisonjeira para a actividade
empresarial. Num certo sentido, podemos seguir o percurso desta história até à
época medieval e antiga, quando, além dos ataques à actividade empresarial que
encontramos na filosofia e na religião, pensadores tão práticos como Cícero
prestaram uma atenção cuidada à questão da equidade nas transações comerciais
correntes. Mas para muita desta história também, a atenção centrou-se quase
totalmente sobre esse tipo de transacções particulares, rodeando este campo de
um forte sentido de ad hoc, uma prática alegadamente não filosófica e
afastada a maior parte das vezes por ser "casuística".
Assim, a disciplina da ética empresarial
tal como é praticada hoje em dia não tem mais do que uma década. Há apenas dez
anos, era ainda uma amálgama duvidosa de uma revisão rotineira de teorias
éticas, algumas considerações gerais acerca do carácter justo do capitalismo e
de uma série de casos tornados paradigmáticos — a maior parte deles desgraças,
escândalos e desastres mostrando o mundo empresarial no que tem de pior e de
mais irresponsável. A ética empresarial era um tópico sem credenciais na
filosofia mais corrente, sem conteúdo conceptual próprio. Era um assunto
demasiado virado para a prática, até para a ética aplicada, e, num mundo
filosófico encantado por ideias transcendentes e mundos apenas possíveis, a
ética empresarial estava demasiado preocupada com a vulgar moeda corrente das
trocas quotidianas — o dinheiro.
Mas a própria filosofia virou-se outra vez
para o mundo real, e a ética empresarial encontrou ou fez o seu lugar na junção
entre os dois. Novas aplicações e uma renovada sofisticação na teoria dos jogos
e na teoria da decisão social permitiram a introdução de análises mais formais
na ética empresarial e, o que é muito mais importante, a interacção com, e a
imersão dos, praticantes da ética empresarial no mundo activo dos executivos
das grandes empresas, sindicatos de trabalhadores e pequenos empresários
consolidou aquilo que tinham sido elementos duvidosamente amalgamados da ética
empresarial numa disciplina, atraiu o interesse e atenção dos líderes
empresariais e transformou praticantes "académicos" em participantes
activos no mundo empresarial. Por vezes, podemos acrescentar, até lhes dão
ouvidos.
2. Uma história
concisa da ética empresarial
Num sentido amplo, a atividade empresarial
existe pelo menos desde os antigos sumérios que há cerca de seis mil anos (de
acordo com Samuel Noah Kramer) levavam a cabo uma grande quantidade de trocas
comerciais, mantendo registos. Mas o comércio nem sempre foi visto como uma
actividade fundamental e respeitável, tal como acontece nas sociedades
modernas, e a perspectiva ética sobre o comércio ao longo da maior parte da
história tem sido quase totalmente negativa. Aristóteles, que merece ser
reconhecido como o primeiro economista (dois mil anos antes de Adam Smith)
distinguia dois sentidos diferentes daquilo a que chamava economia; o oikonomikos
ou economia doméstica, que ele aprovava e considerava essencial para o
funcionamento de qualquer sociedade ainda que pouco complexa, e a chrematisike,
a troca que tem como objectivo o lucro.
Aristóteles acusou esta actividade de ser
completamente destituída de virtude e chamou parasitas àqueles que se
entregavam a tais práticas puramente egoístas. O ataque de Aristóteles à prática
repugnante e improdutiva da usura, manteve a sua força praticamente até ao
século XVII. Apenas os marginais, nas franjas da sociedade, e não os cidadãos
respeitáveis, se dedicavam a tais actividades. (O Shylock de Shakespeare no Mercador
de Veneza era um marginal e um usurário.) Esta é, a traços largos, a
história da ética empresarial — o ataque indiscriminado ao comércio e às suas
práticas. Jesus expulsou os vendilhões do templo, e os moralistas cristãos de
S. Paulo a S. Tomás de Aquino e Martinho Lutero seguiram o seu exemplo,
condenando rotundamente a maior parte daquilo a que hoje prestamos homenagem
como o mundo dos negócios.
Mas se a ética empresarial como condenação
foi levada a cabo pela filosofia e pela religião, o mesmo aconteceu com a
dramática viragem em relação ao comércio que teve lugar no início da idade
moderna. Calvino e, em seguida, os Puritanos Ingleses, pregaram as virtudes da
poupança e da iniciativa, e Adam Smith canonizou a nova fé em 1776 na sua
obra-mestra, A Riqueza das Nações. A nova atitude em relação ao comércio
não surgiu, claro está, da noite para o dia; ao invés, baseou-se em tradições
com uma longa história.
As guildas medievais, por exemplo, tinham
estabelecido os seus próprios códigos de ética empresarial, específicos para
cada ofício, muito antes de o comércio se tornar a instituição fundamental da
sociedade. Mas a aceitação geral do comércio e o reconhecimento da economia
como uma estrutura fundamental da sociedade dependeu de uma maneira
completamente nova de pensar acerca da sociedade que exigiu não apenas uma
mudança na sensibilidade filosófica e religiosa, mas também, e subjacente a
ela, um novo sentido da sociedade e até da natureza humana.
Esta transformação pode ser explicada
parcialmente em termos de urbanização, de sociedades maiores e mais
centralizadas, da privatização de grupos familiares enquanto consumidores, do
rápido desenvolvimento tecnológico, do crescimento da indústria e do
concomitante desenvolvimento de estruturas, necessidades e desejos sociais. Com
a obra clássica de Adam Smith, a chrematisike tornou-se a instituição
fundamental e a principal virtude da sociedade moderna. Mas a versão popular
degradada da tese de Smith (a cobiça é boa) não era de molde a desembocar na
disciplina da ética empresarial (não será isto uma contradição nos termos?), e
os discursos moralizadores acerca do comércio mantiveram o seu preconceito
antigo e medieval. Homens de negócios como Mellon e Carnegie faziam
conferências públicas acerca das virtudes do sucesso e da noblesse oblige
dos ricos, mas a ética empresarial enquanto tal foi na sua maior parte
desenvolvida por socialistas, como uma diatribe contínua contra a amoralidade
do modo empresarial de pensar.
Só muito recentemente começou a dominar no
discurso acerca do comércio uma perspectiva mais moral e respeitável acerca
desta actividade, o que arrastou consigo a ideia de estudar os valores e ideais
subjacentes. Podemos facilmente compreender como a liberdade do mercado pode
sempre ser uma ameaça aos valores tradicionais e hostil ao controlo
governamental, mas já não concluímos de forma tão sofística que o próprio
mercado não tem valores ou que os governos servem melhor o bem público do que
os mercados.
3. O mito do lucro
como objectivo
A ética empresarial já não se preocupa
apenas ou fundamentalmente com a crítica do comércio e da sua prática. Os
lucros já não são condenados juntamente com a "avareza" em sermões
moralizantes e as grandes empresas já não são vistas como monólitos sem rosto e
sem alma. A nova preocupação diz respeito a como deve o lucro ser concebido no
contexto mais amplo da produtividade e da responsabilidade social, e como podem
as grandes empresas, enquanto comunidades complexas, servir tanto os seus
empregados como a sociedade na qual se encontram.
A ética empresarial evoluiu de um ataque
totalmente crítico ao capitalismo e ao objectivo do lucro, para um exame mais
produtivo e construtivo das regras e práticas subjacentes ao comércio. Mas o
antigo paradigma — aquilo a que Richard DeGeorge chamou o mito dos negócios
amorais — persiste, não apenas num público desconfiado e em alguns filósofos de
pendor socialista, mas também entre muitas pessoas que se dedicam ao comércio.
Posto isto, a primeira tarefa da ética empresarial é abrir caminho por entre
alguns mitos e metáforas altamente incriminatórios que, mais do que esclarecer,
obscurecem o espírito subjacente que torna a actividade empresarial possível.
Cada disciplina tem o seu próprio
vocabulário de auto-glorificação. Os políticos deliciam-se com os conceitos de
serviço público ao mesmo tempo que procuram o poder pessoal, os advogados
defendem os nossos direitos na base de pagamentos chorudos — e os professores
descrevem aquilo que fazem em termos da nobre linguagem da verdade e do
conhecimento, enquanto gastam a maior parte do seu tempo e energia em política
de bastidores. Mas, no caso do comércio, a linguagem de auto-glorificação é
frequente e particularmente pouco lisonjeira.
Por exemplo, os executivos ainda falam acerca
daquilo que fazem em termos do lucro como objectivo, sem se aperceberem de que
a expressão foi inventada pelos socialistas do século XIX como um ataque
ao comércio e à sua busca redutora de dinheiro com exclusão de todas as outras
considerações e obrigações. É verdade que um negócio visa obter lucros, mas só
o faz fornecendo bens e serviços de qualidade, criando empregos e inserindo-se
na comunidade. Seleccionar os lucros em detrimento da produtividade ou do
serviço público como o objectivo central da actividade empresarial é
simplesmente provocatório. Os lucros não são, em si, o fim ou o objectivo da
actividade empresarial: os lucros são distribuídos e reinvestidos. Os lucros
são um meio para montar o negócio e recompensar os empregados, os executivos e
os investidores. Para algumas pessoas os lucros podem ser um meio de registar
os ganhos, mas mesmo nestes casos o objectivo é o estatuto e a satisfação de
ganhar e não os lucros em si.
Uma imagem de si que alguns executivos têm,
mais sofisticada mas não muito diferente, afirma que os gestores empresariais
estão acima de tudo vinculados a uma e apenas uma obrigação: maximizar os
lucros dos seus accionistas. Mas não é preciso inquirir se este é de facto o
objectivo por detrás da maior parte das decisões de gestão para chamar a
atenção para que, ainda que os gestores reconheçam que os seus próprios papéis
nos negócios são definidos mais por obrigações do que pelo objectivo do lucro,
esta imagem pouco lisonjeira foi simplesmente transferida para os accionistas
(isto é, para os proprietários).
Será verdade que os
investidores/proprietários se preocupam apenas com a maximização dos seus
lucros? Será, afinal, o accionista a encarnação daquele desumano homo
economicus completamente destituído de responsabilidade e orgulho cívico,
sem qualquer preocupação com as virtudes da empresa de que ele ou ela é
proprietário para além das responsabilidades que podem torná-lo vulnerável a
processos judiciais onerosos? E se alguns investidores fortuitos, que investem
apenas por quatro meses, podem realmente não estar senão interessados em
aumentar os seus investimentos em 30 %, como podemos ter tanta certeza de que
os gestores da empresa têm alguma obrigação para com eles além de não
derreter ou esbanjar intencionalmente o seu dinheiro? A procura do lucro não é
o objectivo último e muito menos é o objectivo único dos negócios. É antes um
dos muitos objectivos e ainda assim é-o enquanto um meio e não enquanto um fim
em si.
É assim que compreendemos mal o comércio:
adoptamos uma perspectiva demasiado redutora daquilo que o comércio é, por
exemplo, a procura do lucro, e depois retiramos conclusões anti-éticas ou
amorais. É este enfoque redutor e injustificado sobre, por exemplo, os direitos
dos accionistas que tem sido usado para defender alguns dos takeovers
hostis, extremamente destrutivos e certamente improdutivos, de grandes empresas
nos últimos anos. Não estou com isto a negar os direitos dos accionistas a um
retorno justo, nem as responsabilidades fiduciárias dos gestores de uma
empresa. Quero apenas dizer que estes direitos e responsabilidades só têm
sentido num contexto social mais vasto e que a própria ideia do lucro como
objectivo como um fim em si — em oposição a uma concepção do lucro como um meio
para encorajar e recompensar o trabalho árduo e o investimento, construindo um
negócio melhor e servindo melhor a sociedade — é um obstáculo sério à
compreensão do rico tecido de objectivos e actividades que compõem o mundo dos
negócios.
4. Outros mitos e
metáforas dos negócios
Entre os mitos e metáforas mais
prejudiciais que encontramos no discurso acerca dos negócios estão aqueles
conceitos darwinistas másculos como a sobrevivência do mais apto e aquilo lá
fora é uma selva (para a origem destes conceitos, veja-se artigo 44, O Significado
da Evolução). A ideia subjacente, claro está, é a de que a vida dos negócios é
competitiva, e nem sempre justa. Mas estas duas observações óbvias são muito
diferentes das imagens de comer ou ser comido e cada um por si que são vulgares
no mundo empresarial. É verdade que o comércio é e deve ser competitivo, mas
não é verdade que seja uma actividade assassina, canibal, onde se faz aquilo
que for preciso para sobreviver.
Por mais competitiva que uma dada indústria
possa ser, assenta sempre sobre uma fundação de interesses partilhados e regras
de conduta consensuais, e a competição tem lugar não numa selva mas numa
comunidade, a qual presumivelmente serve e da qual depende. A vida empresarial
é, antes de mais, fundamentalmente cooperativa. A competição só é
possível nos limites de preocupações que são mutuamente partilhadas. E, contrariamente
à metáfora da selva de cada animal por si, o comércio envolve sempre grandes
grupos de cooperação baseados na confiança mútua, não apenas as próprias
empresas, mas também redes de fornecedores, serviços, clientes e investidores.
A concorrência é essencial para o capitalismo, mas confundir isto com
concorrência desenfreada é minar a ética e também não compreender a natureza da
concorrência. (Do mesmo modo, devemos olhar com desconfiança para a metáfora
familiar da guerra que é popular em tantos conselhos de administração e para a
corrente metáfora do jogo e a ênfase em ganhar que tem tendência para transformar
a actividade séria de ganhar a vida em qualquer coisa como um desporto
auto-contido.)
A metáfora mais persistente, que parece
resistir apesar da quantidade de provas acumuladas contra ela, é a do
individualismo atomista. A origem da ideia segundo a qual a vida empresarial
consiste simplesmente em transacções sobre as quais há acordo mútuo entre
cidadãos individuais (evitando a interferência do governo) pode ser encontrada
em Adam Smith e na filosofia que dominou a Grã-Bretanha no século XVIII. Mas a
maior parte da vida empresarial de hoje consiste em papéis e responsabilidades
em empreendimentos cooperativos, sejam eles pequenos negócios familiares ou
empresas multinacionais gigantescas.
O governo e as empresas são tão
frequentemente parceiros quanto opositores (por mais frustrante que por vezes
possa parecer o labirinto da regulação), seja por meio de subsídios, tarifas e
incentivos fiscais ou sob a forma de empreendimentos em estreita cooperação
(Japan, Inc. e projectos tão grandiosos como o do vaivém espacial da NASA). Mas
o individualismo atomista não é apenas inadequado perante a complexidade
empresarial do mundo dos negócios de hoje; é também ingénuo ao supor que não há
quaisquer regras e práticas institucionais subjacentes à mais simples promessa,
contrato ou troca. O comércio é uma prática social, e não uma actividade levada
a cabo por indivíduos isolados. Só são possíveis porque têm lugar numa cultura
com um conjunto de procedimentos e expectativas estabelecidos e estes (à
excepção de detalhes) não estão abertos à manipulação individual.
Assim, é um sinal de considerável progresso
que um dos modelos dominantes do pensamento empresarial corrente seja a ideia
de uma cultura empresarial. Como em qualquer analogia, não há, claro, uma
correspondência estrita, mas é importante considerar as virtudes desta
metáfora. É social, e rejeita o individualismo atomista. Reconhece que o lugar
das pessoas na organização é a estrutura fundamental da vida empresarial. Aceita
abertamente a ideia de uma ética. Reconhece que os valores partilhados são o
que mantém uma cultura coesa. Ainda deixa lugar para o individualista rebelde,
o empreendedor, mas este ou esta só é possível na medida em que há um papel (e
um papel importante) para a excentricidade e a inovação. Mas o problema da
metáfora da cultura é que também ela tende a ser demasiado auto-contida. Uma
empresa não é como uma tribo isolada das Ilhas Trobriand. Uma cultura
empresarial é uma parte inseparável de uma cultura mais vasta, é no máximo uma
sub-cultura (ou uma sub-sub-cultura), uma unidade funcional especializada que
está num órgão que está num organismo. Aliás, o que caracteriza todos estes
mitos e metáforas é a tendência para ver o comércio como uma actividade isolada
e separada, com valores diferentes dos valores da sociedade circundante. Acabar
com esta perspectiva de isolamento é a primeira tarefa da ética empresarial.
5. Ética micro,
macro e molar
Podemos muito bem distinguir três (ou mais)
níveis de comércio e de ética empresarial, desde o micronível — as
regras para uma troca justa entre dois indivíduos, até ao macronível —
as regras institucionais ou culturais do comércio para toda uma sociedade (o
mundo dos negócios). Devemos também circunscrever uma área a que podemos chamar
o nível molar da ética empresarial, e que diz respeito à unidade básica
do comércio nos nossos dias — a empresa. A micro-ética nos negócios é, claro,
uma parte integrante da ética tradicional — a natureza das promessas, as
consequências e outras implicações das acções de um indivíduo, o fundamento e a
natureza dos diversos direitos individuais. O que é específico da micro-ética
dos negócios é a ideia de troca justa e, juntamente com ela, a noção de um
salário justo, de tratamento justo, do que pode ser considerado uma pechincha e
do que, pelo contrário, constitui um roubo. A noção aristotélica de justiça
comutativa é aqui particularmente útil, e mesmo os antigos se preocupavam já,
de tempos a tempos, com a questão de saber se, por exemplo, o vendedor de uma
casa estava obrigado a informar o potencial comprador de que o telhado tinha
chegado ao seu limite e podia deixar entrar água às primeiras chuvas fortes.
Por seu lado, a macro-ética tornou-se uma
parte integrante das questões mais vastas acerca da justiça, da legitimidade e
da natureza da sociedade que constituem a filosofia social e política. Qual é a
finalidade do mercado livre — ou é este em algum sentido um bem em si mesmo,
com o seu próprio telos? São os direitos de propriedade privada básicos,
precedendo de algum modo a convenção social (como John Locke ou, mais
recentemente, Robert Nozick, defenderam) ou deve o mercado ser também concebido
como uma prática social complexa da qual os direitos são apenas um ingrediente
entre outros? Será o sistema de mercado livre justo? Será a maneira mais
eficiente de distribuir bens e serviços numa sociedade? Prestará suficiente
atenção a casos de necessidade desesperada (onde uma troca justa nem sequer
está em causa)? Prestará suficiente atenção ao mérito, nos casos em que não
está garantido que haja procura suficiente de virtude para que esta seja
recompensada? Quais são as funções legítimas (e ilegítimas) do governo na vida
dos negócios, e qual é a função da regulação governamental? Por outras palavras,
a macro-ética é uma tentativa de ter uma imagem global, de compreender a
natureza do mundo dos negócios e das suas funções próprias.
Mas a unidade molar definitiva do comércio
moderno é a empresa, e as questões centrais da ética empresarial tendem a dirigir-se
declaradamente aos directores e empregados daqueles poucos milhares de empresas
que determinam a maior parte da vida comercial mundial. São, especificamente,
questões que dizem respeito ao papel da empresa na sociedade e ao papel do
indivíduo na empresa. Assim, não é de surpreender que os assuntos mais
estimulantes se encontrem nos interstícios dos três níveis de discurso ético,
por exemplo, a questão da responsabilidade social da empresa — o papel da
empresa na sociedade mais vasta —, e questões de responsabilidades definidas
pelo cargo — o papel do indivíduo na empresa.
6. A empresa na
sociedade: a ideia de responsabilidade social
O conceito central na maior parte da ética
empresarial mais recente é a ideia de responsabilidade social. É também um
conceito que tem irritado muitos dos entusiastas do mercado livre tradicional e
promovido alguns argumentos incorrectos ou enganadores. O mais famoso será
talvez a diatribe do prémio Nobel da Economia Milton Friedman, no New York
Times (13 de Setembro de 1970), intitulada A responsabilidade social dos
negócios é aumentar os seus lucros. Neste artigo, Friedman chamava aos homens
de negócios que defendiam a ideia de responsabilidade social da empresa fantoches
involuntários das forças intelectuais que estão a minar as bases de uma sociedade
livre e acusava-os de pregar um socialismo puro e duro.
O
argumento de Friedman consiste essencialmente em afirmar que os gestores de uma
empresa são empregados dos accionistas e, enquanto tais, têm uma
responsabilidade fiduciária de maximizar os seus lucros. Dar dinheiro para
caridade ou outras causas sociais (excepto enquanto actividades de relações
públicas visando aumentar os negócios) e envolver-se em projectos comunitários
(que não aumentem os negócios da empresa) é equivalente a roubar os
accionistas. Mais ainda, não há qualquer razão para supor que uma empresa ou os
seus empregados têm alguma competência ou conhecimento especial no âmbito das
políticas públicas, logo, quando se envolvem em actividades comunitárias
(enquanto gestores da empresa, não enquanto cidadãos privados agindo em seu
próprio nome), estão não só a ultrapassar as suas competências, como também a
violar as suas obrigações.
Algumas das falácias presentes neste
raciocínio têm a ver com a perspectiva redutora do comércio como se estivesse
orientado para o lucro, e com o retrato unidimensional e muito pouco lisonjeiro
do accionista que foi mencionado anteriormente; outras ("socialismo puro e
duro e roubar) são simplesmente excessos retóricos. O argumento da competência
(também defendido por Peter Drucker no seu influente livro sobre gestão, Management)
só faz sentido para casos em que as empresas levem a cabo projectos de
engenharia social que estejam de facto para além das suas capacidades; mas será
que é preciso competências especiais ou conhecimentos profundos para ter
preocupações acerca do emprego discriminatório, ou das práticas de promoção
dentro da empresa, ou dos efeitos devastadores dos lixos industriais sobre a
paisagem envolvente?
A resposta geral a argumentos do tipo do de
Friedman que recentemente se tornou popular na ética empresarial pode ser
sintetizada num modesto jogo de palavras: em vez do accionista (stockholder),
os beneficiários das responsabilidades sociais da empresa são as partes
interessadas (stakeholders), de que os accionistas são apenas uma
subclasse. Os stakeholders de uma empresa são todos os que são afectados
e que têm direitos e expectativas legítimos em relação às actividades da
empresa, o que inclui os empregados, os consumidores e os fornecedores, assim
como a comunidade envolvente e a sociedade no seu conjunto. A vantagem deste
conceito é que ele permite expandir muito o enfoque das preocupações
empresariais sem perder de vista as virtudes e capacidades particulares da
própria empresa. Considerada deste modo, a responsabilidade social não é um
fardo adicional sobre a empresa, mas uma parte integrante das suas preocupações
essenciais, servir as necessidades e ser justo não apenas para com os seus
investidores ou proprietários, mas também para com aqueles que trabalham,
compram, vendem, vivem perto ou são de qualquer outro modo afectados pelas
actividades que são exigidas e recompensados pelo sistema de mercado livre.
7. Obrigações para
com os stakeholders: consumidores e comunidade
Os gestores das empresas têm obrigações
para com os seus accionistas, mas também têm responsabilidades para com outras
partes interessadas (stakeholders). Em particular, têm obrigações para
com os consumidores e também para com a comunidade circundante, assim como para
com os seus próprios funcionários (ver secção 8). O objectivo da empresa é,
afinal de contas, servir o público, seja fornecendo produtos e serviços
desejados e desejáveis, seja não prejudicando a comunidade e os seus cidadãos.
Não se pode dizer, por exemplo, que uma empresa está a cumprir o seu objectivo
público se está a poluir o ar ou as reservas de água, se está a estrangular o
trânsito ou a açambarcar recursos comuns, se está (ainda que indirectamente) a
promover o racismo ou o preconceito, se está a destruir a beleza natural do
ambiente, ou se está a ameaçar o bem-estar financeiro ou social dos cidadãos
locais.
Em relação aos consumidores, a empresa tem
a obrigação de fornecer bens e serviços de qualidade. Tem a obrigação de
garantir que os seus produtos e serviços são seguros, através de investigação e
de instruções adequadas, de avisos contra eventuais utilizações incorrectas. Os
produtores são e devem ser responsáveis pelos efeitos perigosos e pela má
utilização previsível dos seus produtos, por exemplo, a probabilidade de uma
criança engolir uma peça pequena e facilmente destacável de um brinquedo feito
especialmente para o grupo etário a que ela pertence; e hoje alguns grupos de
defesa do consumidor sugerem que tal responsabilidade não deve ser
excessivamente qualificada pela alegação de que "se trata de adultos que
sabiam ou deviam saber os riscos do que estavam a fazer". Esta última
exigência aponta, no entanto, para uma série de preocupações problemáticas
correntes, especificamente, a presunção geral de maturidade, inteligência e
responsabilidade por parte do consumidor e a questão dos limites razoáveis da
responsabilidade por parte do produtor. (É óbvio que às crianças se aplicam
considerações especiais.)
Em que medida deve o produtor tomar
precauções contra utilizações dos seus produtos que sejam claramente
idiossincráticas ou idiotas? Que restrições devem ser impostas a produtores que
vendem e distribuem produtos comprovadamente perigosos, por exemplo, cigarros e
armas de fogo — ainda que haja uma considerável procura desses produtos por
parte dos consumidores — e deve o produtor ser responsável por aquilo que é
claramente um risco previsível para o consumidor? De facto, cada vez mais se
coloca a questão de saber se e em que medida devemos reinstalar aquele aviso
agora antigo, "Consumidor, tem cuidado", para contrariar a tendência
descontrolada em direcção à irresponsabilidade do consumidor e à
responsabilização empresarial indiscriminada.
A inteligência e a responsabilidade do
consumidor estão também em causa no tópico muito discutido da publicidade,
contra a qual algumas das mais sérias críticas das práticas e negócios
correntes têm sido dirigidas. A defesa clássica do sistema de mercado livre
consiste em afirmar que ele satisfaz a procura. Mas se forem os produtores a criar
de facto a procura para os produtos que produzem, então esta defesa clássica
perde o seu fundamento. Efectivamente, afirma-se que publicidade é em si
coerciva, na medida em que interfere com a livre escolha do consumidor, o qual
deixa de estar numa posição em que decide a melhor maneira de satisfazer as
suas necessidades e é em vez disso submetido a um bombardeamento de influências
que podem muito bem ser irrelevantes ou até contrárias a essas necessidades. E
mesmo quando a desejabilidade do produto não está em causa, há questões muito
reais acerca da publicidade de certas marcas e da criação artificial de
"diferenciação de produtos".
E há ainda aquelas questões já familiares
acerca do gosto — na fronteira (e por vezes para além dela) entre a ética e a
estética. Há o uso do sexo — muitas vezes tentador e por vezes declarado — para
aumentar o poder de atracção de produtos que vão da pastilha elástica aos
automóveis; há as promessas implícitas, mas obviamente falsas, de sucesso e
aceitação social se comprarmos este sabonete ou aquela pasta de dentes; e há as
representações ofensivas das mulheres ou de minorias e muitas vezes da natureza
humana enquanto tal, apenas para vender produtos que a maior parte de nós podia
perfeitamente dispensar. Mas será que este consumo supérfluo e o gosto (ou
falta dele) que o vende é uma questão ética? Será que se pode realmente esperar
que alguém acredite que a sua vida irá mudar com uma pitadinha de mentol ou um
chão de cozinha que não precisa de ser encerado?
Uma questão muito mais séria é, claro está,
a mentira pura e simples em publicidade. Mas aquilo que constitui uma mentira
não é de todo evidente neste mundo da sedução, do kitsch e da hipérbole.
Talvez ninguém acredite realmente que uma certa pasta de dentes ou um par de
calças de ganga de marca possa garantir o seu sucesso com a namorada dos seus
sonhos (embora milhões estejam dispostos a arriscar, porque nunca se sabe), mas
quando um produto tem efeitos que podem muito bem ser fatais, a exactidão da
publicidade é considerada com muito mais cuidado. Quando um produto médico é
publicitado com base em informação técnica enganosa, incompleta ou simplesmente
falsa, quando um remédio para a constipação é vendido ao balcão com a promessa,
mas sem qualquer prova concreta, de que pode aliviar os sintomas e evitar
complicações, quando efeitos secundários conhecidos e perigosos são ocultados
sob a afirmação genérica Como no caso de qualquer outro medicamento, consulte o
seu médico, então a aparentemente simples verdade na publicidade torna-se um
imperativo moral e alguns princípios éticos (se não mesmo a lei) foram
violados.
Tem-se argumentado frequentemente que, num
mercado livre funcionando idealmente, a única publicidade que devia ser necessária
ou permitida seria a pura informação relativa à utilidade e qualidade do
produto. Mas, em algumas circunstâncias, o consumidor médio pode não ter nem
ser capaz de compreender a informação relevante acerca do produto em causa. No
entanto, em muitos casos, os consumidores assumem muito pouca responsabilidade
pelas suas próprias decisões e não se pode com justiça culpar a publicidade
pela sua irresponsabilidade ou irracionalidade. As empresas têm
responsabilidades para com os seus clientes, mas os consumidores também têm
responsabilidades. A ética empresarial não é uma questão de responsabilidade
empresarial apenas, mas de um conjunto interligado de responsabilidades mútuas.
8. O indivíduo na
empresa: responsabilidades e expectativas
A parte interessada (stakeholder) mais
maltratada no padrão das responsabilidades empresariais será talvez o empregado
da empresa. Na teoria tradicional do mercado livre, o trabalho do empregado é
ele próprio mais uma mercadoria, sujeita às leis da oferta e da procura. Mas enquanto
que podemos vender a preço de saldo alfinetes ou peças de máquina que já não
têm procura, ou simplesmente desfazermo-nos deles, o empregado é um ser humano,
com necessidades e direitos muito reais e distintos do seu papel na produção ou
no mercado. Um espaço de trabalho apertado e desconfortável ou longas e duras
horas de trabalho podem reduzir as despesas ou aumentar a produtividade, e
pagar salários de sobrevivência a empregados que, por uma razão ou outra, não
podem, não se atrevem ou não sabem como queixar-se, pode aumentar os lucros,
mas tais condições e práticas são hoje em dia reconhecidas por todos menos pelo
mais empedernido darwinista como altamente anti-éticas e legalmente
injustificáveis.
Mesmo assim, o modelo do trabalho como
mercadoria ainda tem uma forte influência em muito do pensamento empresarial,
tanto no que diz respeito a gestores e executivos como a trabalhadores, tanto
especializados como indiferenciados. É por esta razão que muita da mais recente
ética empresarial centrou a sua atenção em noções como os direitos dos
empregados e, a partir de uma perspectiva bastante diferente, é também por esta
razão que a velha noção de lealdade à empresa voltou a merecer atenção. Afinal,
se uma empresa trata os seus empregados como meras peças descartáveis, ninguém
pode ficar surpreendido se os empregados começarem a tratar a empresa com uma
mera fonte transitória de salários e benefícios.
No entanto, a outra face deste quadro
perturbador é a também renovada ênfase dada à noção de papéis e responsabilidades
do empregado, uma das quais é a lealdade à empresa. Nunca é demais sublinhar
que lealdade aqui é uma preocupação que funciona nos dois sentidos; o empregado
pode, em virtude do seu emprego, ter obrigações especiais para com a empresa,
mas a empresa tem por sua vez obrigações para com o empregado. Mas é perigoso
colocar ênfase em conceitos como lealdade sem esclarecer muito bem que a
lealdade está ligada não apenas ao emprego em geral mas também ao papel e
responsabilidades particulares de cada um. Um papel, segundo R.S. Downie, é um
aglomerado de deveres e direitos com algum tipo de função social — neste caso,
uma função na empresa (Roles and Values. p. 128). Há certos aspectos do
papel e das responsabilidades de cada um que podem ser especificados num
contrato de trabalho e na lei, mas muitos deles — por exemplo, os costumes
locais, os padrões de deferência e outros aspectos daquilo a que há pouco chamámos
cultura empresarial — só se tornam evidentes com o tempo e através do contacto
com outros empregados.
Mais ainda, não se trata simplesmente de
fazer o nosso trabalho mas, por razões de ética e de economia, de fazer o nosso
trabalho o melhor possível. A este respeito parece-me correcto o que diz Norman
Bowie: Um trabalho nunca é apenas um trabalho. Tem também uma dimensão moral:
orgulho no nosso produto, cooperação com os colegas e preocupação com o
bem-estar da empresa. Mas, é claro, estas obrigações decorrentes do papel têm
os seus limites (por mais que certos gestores tentem negar isto para sua
conveniência). O comércio não é um fim em si, está ao invés inserido e é
sustentado por uma sociedade que tem outras e mais importantes preocupações,
normas e expectativas.
Ouvimos muitas vezes empregados (e até
mesmo executivos de alto nível) queixarem-se de que os seus valores
empresariais estão em conflito com os seus valores pessoais. O que isto
normalmente significa é que, sugiro eu, certas exigências feitas pelas empresas
são anti-éticas ou imorais. Aquilo a que a maior parte das pessoas chama os
seus valores pessoais são de facto os valores mais profundos e amplos da sua
cultura. E é neste contexto que devemos compreender a já familiar figura
trágica da vida empresarial contemporânea — o denunciante.
Este não é simplesmente um excêntrico que
não consegue adaptar-se à organização que ameaça denunciar. O denunciante
reconhece não ser capaz de tolerar a violação da moral ou da confiança pública
e sente-se na obrigação de fazer alguma coisa. As biografias da maior parte dos
denunciantes não são uma leitura agradável, mas a sua existência e ocasional
sucesso testemunham amplamente as obrigações interligadas das empresas, dos
indivíduos e da sociedade. Aliás, talvez o resultado particular mais importante
da emergência da ética empresarial no espaço público tenha sido chamar a
atenção para esses indivíduos e dar uma nova respeitabilidade àquilo que os
seus empregadores vêem incorrectamente como nada mais do que falta de lealdade.
Mas quando a exigência de fazer negócio entra em conflito com a moral ou o
bem-estar da sociedade, são os negócios que têm que ceder, o que é, talvez, o
fundamental da ética empresarial. (Robert C. Solomon, da
Universidade do Texas, Austin)
Referências
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Política, Livro I, Caps. 8-11 (ed. da Loeb Classical Library, Cambridge,
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Drucker,
P.: Management (Londres: Pan, 1979).
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·
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J.: Segundo Tratado do Governo (1690); ed. de P. Laslett (Cambridge:
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·
Nozick,
R.: Anarchy, State and Utopia (Nova
Iorque: Basic Books, 1974).
·
Solomon,
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Diego: Harcourt Brace Jovanovich, 1983).
·
Smith,
A.: A Riqueza das Nações (1776); 6.a ed. (Londres: Methuen,
1950).
MARKETING PURO O ENTERRO DO BENTLEY DO CONDE
O mundo caiu sobre a cabeça do empresário Chiquinho Scarpa,
quando ele anunciou que iria enterrar o seu estimado veículo Bentley
Continental, avaliado em aproximadamente R$ 1 milhão.
Era marketing para o lançamento da campanha de doação de órgãos
da ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos), comemorada na semana
entre 23 e 27 de setembro, que teve pela primeira vez uma divulgação inusitada.
Há alguns dias o conde Chiquinho Scarpa vinha divulgando em sua
página no Facebook que iria enterrar seu automóvel Bentley, como faziam os
faraós egípcios, que levavam suas riquezas para as respectivas catacumbas. Mas,
na verdade, era só uma pegadinha, com direito à entrevista coletiva para a
imprensa, anunciando seu apoio à campanha.
Na oportunidade, declarou que por mais valor que tenha um bem,
não vale nada embaixo da terra, com a frase: “Absurdo é enterrar algo muito
mais valioso do que um Bentley: seus órgãos”, por isso, é recomendável que as
pessoas optem pela doação de órgãos para salvar vidas ou proporcionar
recuperação aos pacientes com órgãos danificados. A campanha é uma parceria
entre o governo federal e a Associação Brasileira dos Transplantes de Órgãos.
A ação criada pela Leo Burnett Tailor Made incluiu uma série de
imagens com Chiquinho cavando a suposta cova do Bentley no jardim de sua mansão
e ganhou repercussão internacional. (Do Blog do Fernando Vasconcellos)
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