quinta-feira, 18 de abril de 2013

OS INVESTIMENTOS NO SHOPPTER MARKETING

 
Um consumidor recebe, em média, três mil mensagens publicitárias por dia e revisa 11 fontes de informação antes de efetuar uma compra, ante apenas cinco fontes consultadas em 1995. Como fazer esse comprador prestar atenção em uma marca específica no ponto de venda, quando ele tem cada vez menos tempo disponível para a compra e está cada vez mais saturado de publicidade? As respostas têm sido dadas por agências de shopper marketing, especializadas em estratégias para o PDV – seja ele físico ou virtual.

 

Marcas como Coca-Cola, P&G, Unilever e Nestlé são algumas das que têm destinado parte da verba de marketing para a disciplina, cujo foco é reforçar ou reverter comportamentos de compra. Isso é feito a partir de uma combinação de coleta de dados e de observação.“Shopper marketing é uma combinação de pesquisa e de observação.

 

Usamos câmeras, olhamos as pessoas comprarem e analisamos como elas fazem a aquisição dos produtos”, detalha Peter Lidgey, CEO da Visual Latina de Londres, agência de shopper marketing fundada em Buenos Aires e responsável pelas ações de Coca-Cola no mundo relacionadas à disciplina.

 

O tema é relativamente novo. A nomenclatura surgiu em 1999, nos Estados Unidos, o maior mercado consumidor do mundo, mas ganhou força em 2002, com a P&G. “A marca trabalhava de forma muito forte com branding e alguém disse: ‘Há uma nova audiência.

 

O shopper’. Até então, o trade marketing pensava no consumidor, as marcas, no branding, mas ninguém pensava no comprador, aquele que faz a aquisição do produto no ponto de venda”, explica Lidgey, diferenciando consumidor e shopper entre o que consome o produto e o que de fato compra. 

 

Dos Estados Unidos a disciplina avançou para a Europa Ocidental e começou a popularizar-se pela rápida conversão do investimento em vendas. “Shopper marketing está totalmente relacionado às finanças. Qualquer coisa que se fizer no ambiente de varejo poderá ser sentida nas vendas”, analisa o executivo.

 

No Brasil, a disciplina ainda recebe poucos investimentos, mas atrai empresas que veem potencial de crescer aqui. A primeira agência especializada a chegar no país foi a Saatchi & Saatchi X, ligada ao Grupo Publicis, que abriu seu escritório local no final de 2011. “Viemos para desenvolver o mercado.

 

Ele está em estágio de amadurecimento, com empresas estudando como se diferenciar para o consumidor na hora da compra”, diz Regis Duarte, diretor da S&S X para o Brasil e Argentina.

 

A agência atende a P&G há 15 anos para ações de shopper marketing e, no Brasil, tem também Sustagen Kids e C&C. Segundo Duarte, o mercado brasileiro ainda é pequeno, mas cada vez mais varejistas e marcas entendem que precisam melhorar a experiência no ponto de venda.

 

“A indústria sabe que muito da decisão de compra é tomada no PDV e que é necessário criar soluções para melhorar a experiência e aumentar volume de vendas”, afirma.

 

A própria Visual Latina, há 22 anos no mercado, somente trouxe uma operação para o Brasil em meados do ano passado. A companhia “está onde a Coca-Cola está”, com escritórios nos Estados Unidos, México, Inglaterra, Argentina e Brasil, mas aproveitou sua presença em grandes mercados para angariar novos clientes.

 

No país, ela atende Diageo, Kellogs, BRF, Melitta e Unilever. “Não é fácil entrar em um mercado como o Brasil. Vir para cá dependia de encontrar as pessoas certas”, resume Luis Escobar, CEO da operação local.

 

No início do mês, foi a vez do Grupo Newcomm anunciar a vinda de sua própria agência especializada na área. A Labstore, fundada em Madrid, em 2001, será mais uma companhia do WPP no país. “Estamos pensando na região há mais de um ano e a equipe está praticamente montada”, afirma Marcos Quintela, sócio do Grupo Newcomm e CEO da Y&R Brasil.

 

A Telefônica é um dos clientes-chave da agência na Espanha e também deve ter um peso importante na unidade brasileira, que começa a operar no segundo semestre.

 

Compras irracionais

 

Dados do mercado apontam que 80% das decisões de compra são emocionais e que 70% das compras são decididas no ato da aquisição. Por isso, o papel de varejistas e marcas é “ajudar o shopper a tomar uma decisão”, afirmam agências de shopper marketing.

 

O auxílio é possível a partir do entendimento da jornada de compra de determinado produto. “Mapeamos categorias de produtos, o comportamento de compra nessa categoria e recomendamos ações a partir disso para quebrar ou reforçar um comportamento”, explica Duarte, da S&S X.

 

O uso de smartphones com acesso à internet tem alterado a forma como consumidores se comportam na hora de comprar. Shoppers utilizam seus dispositivos para programarem a aquisição e, no ponto de venda, para consultar preços e fazer a seleção final do que irá adquirir. 

 

Dados da F/Radar, monitoramento semestral da F/Nazca S&S, mostram que, hoje, 36% dos consumidores utilizam algum dispositivo móvel ou durante a compra ou para planejá-la. “A tecnologia está influenciando os três momentos: o pré-shopping, o momento da compra e o pós-shopping, em que há a experiência com o produto”, afirma Escobar, da Visual Latina Brasil. 

 

Reforçar ou quebrar comportamentos exige entendimento mais apurado sobre os perfis de shoppers e das missões de compra. “Nosso trabalho é ajudar o shopper nessa jornada e aumentarmos a conversão de vendas”, resume Duarte. (Propmark)

POROBLEMAS COM A SAÚDE MENTAL DAS CRIANÇAS 

(Texto de Elton Alisson, distribuído pela Agência FAPESP) O atendimento em saúde mental em todo o mundo está aquém do desejável. E, mesmo em países com muitos recursos, como os Estados Unidos, ainda há várias barreiras – como o estigma social dos transtornos mentais e a falta de informação sobre a existência de tratamento – para possibilitar o acesso, principalmente de crianças, aos serviços de apoio psicológico.

A avaliação foi feita por Cristiane Seixas Duarte, professora do Departamento de Psiquiatria Infanto-Juvenil da Columbia University, nos Estados Unidos, durante conferência proferida na São Paulo School of Advanced Science for Prevention of Mental Disorders (Y Mind) sobre o contexto e o desenvolvimento da psicopatologia (estudo dos estados psíquicos relacionados ao sofrimento mental) de crianças.

Promovida pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Universidade de Columbia, dos Estados Unidos, e o King’s College, da Inglaterra, o evento, realizado no âmbito do Programa Escola São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA), da FAPESP, ocorreu entre 25 e 29 de março no campus da Unifesp, em São Paulo.

Radicada nos Estados Unidos há 13 anos, Duarte, que fez mestrado e doutorado com Bolsa da FAPESP, participa de um estudo iniciado logo após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, com o objetivo de avaliar os impactos psicológicos de um evento traumático dessa magnitude em crianças.

A pesquisadora destaca, em entrevista à Agência FAPESP, a necessidade de centrar o foco em ações de prevenção e atendimento à saúde mental de crianças e jovens. Mais de 75% dos transtornos mentais surgem na infância e na adolescência e, quanto mais cedo diagnosticado o risco ou o surgimento de um problema de saúde mental, maiores as chances de evitar sua progressão.

Agência FAPESP – Os países em desenvolvimento apresentam maior prevalência de transtornos mentais?


Cristiane Seixas Duarte – O que verificamos – e isso ainda não está claro, porque não há estudo que tenha usado uma mesma metodologia para fazer essa comparação e os dados sobre número de pessoas com transtornos mentais em países como o Brasil são recentes – é que os países em desenvolvimento tendem a ter uma taxa maior de distúrbios mentais do que as nações desenvolvidas. Uma das hipóteses para explicar isso, que ainda não foi testada, é que os países em desenvolvimento apresentam maior prevalência de fatores de risco para o surgimento de transtornos mentais, como a violência. O atendimento à saúde mental, no entanto, está aquém do que seria desejável tanto nos países em desenvolvimento como nos desenvolvidos. Nos Estados Unidos, realizamos estudos em colaboração com pesquisadores da Noruega e da Finlândia e vimos que, mesmo em países com muitos recursos, ainda existem muitas barreiras para o atendimento à saúde mental, principalmente de crianças.

Agência FAPESP – Por que isso ocorre? 


Duarte – Pode ser resultado de uma combinação de fatores, como o estigma social do problema de saúde mental e o desconhecimento de que existem tratamentos muito eficientes para a grande maioria dos distúrbios mentais. A falta de serviço de atendimento à saúde mental também é um fator importante que contribui para esse cenário.

Agência FAPESP – Por que as ações de prevenção e atendimento à saúde mental devem ser focadas em crianças e adolescentes? 


Duarte – Mais de 75% dos transtornos mentais começam na infância ou até os 18 anos de idade – quando o cérebro, a personalidade e as relações estão em desenvolvimento – e progridem ao longo da vida. Isso não quer dizer que não se possa iniciar uma depressão aos 40 anos, por exemplo, o que é bastante comum, principalmente em mulheres. Mas a maioria dos casos de distúrbio mental se inicia muito antes disso.

 Se conseguirmos ter alguma atuação de atendimento à saúde mental realmente efetiva na infância, será possível prevenir a grande maioria dos transtornos mentais. A tendência do senso comum é achar que não é preciso se preocupar com a saúde mental das crianças, porque estão em uma fase em que só brincam. Sabemos, no entanto, que o tratamento de um distúrbio mental pode ser bastante efetivo se diagnosticado no início, antes de o problema se tornar crônico.

Agência FAPESP – Que formas de tratamento de crianças com distúrbios mentais existem atualmente? 


Duarte – Há estratégias farmacológicas eficientes, particularmente para o tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Mas também há estratégias de psicoterapia relativamente breves que podem ajudar muito crianças com outros tipos de transtornos mentais, principalmente se combinadas com intervenções com os pais e se iniciadas cedo. Embora ainda exista muito espaço para melhorar essas intervenções psicossociais e psicoterápicas e torná-las mais eficientes e possíveis de serem incluídas nos sistemas de saúde, elas têm se revelado muito promissoras.

A grande preocupação é como facilitar o acesso a crianças que realmente precisam dessas estratégias. Muitas delas não estão na escola e permanecem excluídas da maioria dos sistemas de atendimento à saúde. Precisamos desenvolver estratégias para atender um número cada vez maior de crianças.

Agência FAPESP – Uma pesquisa divulgada recentemente pela Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] apontou que o uso de metifenidato [medicamento utilizado no tratamento de TDAH] em crianças e adolescentes entre 6 e 16 anos no Brasil aumentou 75% no período de 2009 a 2011. Isso também ocorreu nos Estados Unidos? 


Duarte – Nos Estados Unidos, o consumo de metifenidato para o tratamento de TDAH também tem aumentado, mas muitas crianças que precisam do medicamento não o recebem e as que não precisam o usam. A mensagem de que está se consumindo mais remédios para tratamento de distúrbios mentais não significa, exatamente, uso abusivo. Pode ser que as crianças que realmente poderiam se beneficiar do uso desse medicamento não estão tendo acesso a ele.

Agência FAPESP – Há diferenças de tipos de distúrbios mentais apresentados por crianças e adolescentes de países em desenvolvimento em comparação com as de países desenvolvidos? 


Duarte – De maneira geral, os dados que temos até agora mostram que a estrutura dos transtornos mentais apresentados por crianças e adolescentes tanto de países desenvolvidos como em desenvolvimento parece ser muito semelhante. Mas há também diferenças importantes em relação a como os sintomas da depressão em crianças, por exemplo, são avaliados.

Há países que tendem a “psicologizar” a depressão e enfatizar mais os sintomas cognitivos e emocionais. Outros privilegiam mais os sintomas físicos, como fadiga e insônia, do que os mentais. A forma como os sintomas de um distúrbio mental se moldam podem variar de cultura, país, contexto e classe social. Não sabemos muito bem a quantidade de variações. Seria necessário um estudo usando a mesma metodologia, em diferentes regiões, e isso ainda não foi feito com crianças.

Agência FAPESP – A senhora participa de um estudo que acompanha a trajetória de vida de crianças do condado do Bronx, em Nova York, e de Porto Rico. Há diferenças significativas entre eles? 


Duarte – Esse estudo já tem muitos resultados, porque seguimos essas crianças quando elas tinham entre 5 e 13 anos e agora estamos acompanhando o início de sua fase adulta. Observamos que, na infância, tanto no Bronx como em Porto Rico, meninos e meninas têm problemas de saúde mental mais ou menos parecidos.

Conforme evoluem, porém, as crianças do Bronx ficam piores. Uma das hipóteses para explicar isso é que, em Porto Rico, apesar da pobreza e falta de serviços básicos, não existe um fator importante para o desenvolvimento de transtornos mentais: a discriminação social, que faz com que as pessoas sintam que não pertencem a um determinado grupo.

Nossa interpretação é que algum fator associado a isso pode ser muito importante para o desenvolvimento de transtornos mentais, com outras questões, como o suporte familiar. Em Porto Rico as famílias são mais intactas; já no Bronx, em mais de 40% das famílias, não há a presença do pai.

Todos esses fatores contribuem para o desenvolvimento de transtornos mentais. Fizemos um estudo-piloto com jovens entre 16 e 25 anos dessas duas regiões e constatamos que 40% têm pelo menos um filho que também faz parte de uma população de risco de desenvolvimento de transtorno mental. Precisamos entender como os transtornos mentais evoluem de geração para geração para podermos prevenir os riscos desde o início e tentarmos mudar as trajetórias de saúde mental dessas pessoas.

Agência FAPESP – A senhora também participa de uma pesquisa, iniciada logo após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, para avaliar os impactos psicológicos de um evento traumático dessa magnitude em crianças que vivem em Nova York. Quais os possíveis desdobramentos desse trabalho?


Duarte – Seis meses depois do 11 de setembro, avaliamos 8 mil crianças que estavam não apenas próximas do Ground Zero – o local onde ficava o World Trade Center –, mas em diferentes lugares da cidade. Observamos que elas apresentavam diferentes tipos de transtorno, não apenas o transtorno de estresse pós-traumático.

 Agora, continuamos a seguir uma amostra dessas crianças para analisar o que ocorre na fase adulta, em termos de saúde mental. A ideia é verificar se elas se tornarão pessoas mais temerosas em relação à vida ou, pelo contrário, vão ser mais resilientes e tentarão se posicionar no mundo da maneira mais positiva possível, que é outro tipo de reação apresentado por quem viveu um evento traumático.

Como, infelizmente, episódios dessa magnitude podem acontecer de novo, se soubermos um pouco mais quais são as possíveis trajetórias da saúde mental das pessoas atingidas, direta ou indiretamente, poderemos ajudá-las o mais cedo possível a evitar desenvolver problemas graves de saúde mental. Por outro lado, seguir essas crianças ao longo do tempo abre uma perspectiva muito importante para realmente aprender sobre a evolução dos transtornos mentais, que são doenças crônicas.

Quando analisadas em um só ponto no tempo, o aprendizado sobre elas se torna muito limitado. Se pudermos seguir e verificar como as condições de saúde mental se desenrolam durante as trajetórias de vida e quais são os problemas mais específicos que surgem, poderemos melhorar as estratégias de intervenção clínica.

Agência FAPESP – Quais os principais desafios para a realização de estudos de longa duração como esses, com crianças do Bronx, de Porto Rico e das afetadas pelo 11 de Setembro? 


Duarte – É preciso seguir um grande número de participantes por muito tempo, sem perder o contato com eles e ter certeza de que estão sempre engajadas no estudo, e tudo isso é muito caro. Por isso, não existem muitos estudos desse tipo no mundo, mas o Brasil precisa ter um. Há estudos desse gênero na área da saúde, em geral, mas não em saúde mental. Existem vários estudos do gênero na área de saúde mental nos Estados Unidos, mas o que realizamos com porto-riquenhos, por exemplo, até agora é o único com foco em latinos.

Agência FAPESP – Como a senhora avalia os impactos do Project Liberty, implementado pelo governo dos Estados Unidos logo após o 11 de Setembro, com o intuito de oferecer atendimento psicológico gratuito às pessoas afetadas pelos ataques terroristas ao World Trade Center?


Duarte – O fato de o programa ter possibilitado o acesso gratuito ao atendimento em saúde mental – que nos Estados Unidos é pago e caro – teve um impacto positivo. Mesmo com essa iniciativa, o uso de serviços de saúde mental por crianças que foram atingidas pelo 11 de Setembro e que desenvolveram transtornos mentais ficou abaixo do necessário, conforme demonstrou uma pesquisa de doutorado, realizada por uma estudante brasileira no nosso grupo na Columbia University, que em breve será publicada.

Isso mostra que, além de excluir a barreira do pagamento, talvez precisemos eliminar outros empecilhos em nossas estratégias para facilitar o acesso ao atendimento à saúde mental, como o estigma dos transtornos mentais e a desinformação em relação à existência de tratamento.

Agência FAPESP – Que estratégias o Brasil poderia adotar para melhorar o atendimento à saúde mental de crianças e adolescentes?
Duarte – Conduzimos um estudo em parceria com pesquisadores brasileiros em Itaboraí, cidade com 200 mil habitantes a uma hora do Rio de Janeiro.

O objetivo foi prevenir comportamentos sexuais de risco, como o sexo desprotegido, mais prevalentes em adolescentes com problemas de saúde mental. Para isso, fizemos intervenções em três diferentes tipos de serviços comuns ao resto do país: os Centros de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenis (CAP Sis), os ambulatórios de saúde mental – que representam uma estratégia mais tradicional de atendimento à saúde mental – e o Programa Saúde da Família, uma estratégia de atendimento à saúde primária que cobre aproximadamente 50% da população brasileira.

Como o próprio British Medical Journal destacou em artigo publicado recentemente, esse programa representa uma estratégia brasileira de atendimento à saúde na qual o mundo deveria prestar atenção. Em minha forma de pensar a saúde mental, com grande ênfase na interação com a saúde pública, esse programa também pode ser bastante valioso para identificar crianças com problemas de saúde mental e realizar intervenções básicas para casos mais leves, porque os agentes de saúde são responsáveis por atender um determinado número de famílias de uma área geográfica.

Por morar na mesma comunidade que essas famílias, os agentes de saúde estabelecem com elas relações de longo prazo e podem se deslocar facilmente para fazer qualquer tipo de atendimento e acompanhar o quadro de saúde das pessoas dentro de suas próprias casas. Isso, em termos de acesso às pessoas, não tem preço.

Agência FAPESP – Nesse sentido, qual seria o papel dos profissionais de saúde mental para auxiliar esses agentes de saúde a identificar crianças com problemas de saúde mental? 


Duarte – Nossa responsabilidade, como profissionais de saúde mental, é orientar esses agentes de saúde que estão na linha de frente para fazer a identificação, triagem e mesmo o atendimento dos casos mais simples. Sabemos que isso é possível, desde que esses profissionais tenham o mínimo de treinamento adequado. Não temos a ilusão de que são os psicólogos, psiquiatras e, muito menos, os psiquiatras infantis, que irão atender essa demanda.

Quem terá de fazer a maior parte desse trabalho são os profissionais que estão na linha de frente do atendimento à saúde, como enfermeiras, médicos e até agentes do Programa de Saúde da Família. Esses profissionais podem nos auxiliar no sentido de não diagnosticar um problema de saúde mental, mas identificar uma situação em que claramente há um contexto de risco de desenvolvimento de transtorno mental em que precisamos agir.

Há trabalhos que mostram, por exemplo, que a visita continuada de uma enfermeira a uma mãe nos primeiros meses após o término da gravidez pode contribuir para diminuir o risco de desenvolvimento de comportamentos agressivos e de depressão pós-parto. 
 

CICLO SOBRE GESTÃO ESCOLAR


 O Curso de Pedagogia Unesp/Univesp, polo Sorocaba, organiza o Ciclo Teórico Prático em Gestão Escolar. As atividades vão de 6 de abril a 8 de junho, aos sábados, às 9h.

O curso é conduzido pela Unesp em parceria com a Univesp. O objetivo é ampliar as discussões dos profissionais da educação a respeito da organização e da gestão do trabalho na escola pública.

Os temas abordados nessa edição do Ciclo foram sugeridos pelos alunos do curso, que são professores da rede pública e privada de Sorocaba e região. Assim, além de contemplar conteúdos que fazem parte do currículo do Curso de Pedagogia, os encontros também apontam as preocupações e as necessidades teórico-práticas que fazem parte do cotidiano escolar dos docentes.

Segundo os organizadores, as atividades buscam refletir sobre a organização da escola pública sob a ótica da autonomia e das possibilidades de estruturar-se à luz de um projeto político-pedagógico próprio e discutir aspectos da ação administrativa na escola, enquanto instituição integrante de um sistema amplo, altamente impregnado da estrutura formal-legal.

O curso será realizado na Unesp de Sorocaba, Av. Três de Março nº 511, Alto da Boa Vista. Detalhes no www.unesp.br/portal#!/noticia/10542/unesp-univesp-organiza-ciclo-sobre-gestao-escolar.

 18º CONGRESSO DE CIÊNCIA DA COMUNICAÇÃO

Abertas as inscrições para o 18º Congresso de Ciência da Comunicação na Região Sudeste, o Intercom Sudeste, que este ano ocorrerá entre 3 e 5 de julho na Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp.

Voltado a acadêmicos, graduados, pós-graduados, estudantes de especialização, mestrandos, doutorandos, professores e profissionais de Comunicação e áreas afins, o evento terá como tema de debate “Comunicação em tempo de redes sociais: afetos, emoções, subjetividades”.

A proposta, segundo os organizadores, é debater “como, em uma conjuntura marcada pela impessoalidade, padronização e tecnicismo da comunicação massiva, as redes sociais catalisam afetos, emoções e subjetividades, usando as novas tecnologias de difusão simbólica para resgatar o humanismo”.

O congresso busca prestigiar a atuação de alunos de graduação e recém-graduados na produção científica nos diversos campos da comunicação e possibilitar a apresentação de pesquisas empíricas ou estudos aplicados nas seguintes áreas: Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Relações Públicas e Comunicação Organizacional, Comunicação Audiovisual, Comunicação Multimídia, Interfaces Comunicacionais, Comunicação, Espaço e Cidadania e Estudos Interdisciplinares da Comunicação.

Em paralelo à Intercom Sudeste, ocorrerá o prêmio Expocom, que oferece troféus aos melhores trabalhos de estudantes da graduação e recém-graduados, e o Intercom Júnior, um espaço acadêmico idealizado para receber artigos escritos durante a graduação.

Para os interessados em apresentar seus trabalhos, a data-limite para pagamento da inscrição é 15 de maio. Já os que quiserem participar do congresso como ouvintes podem se inscrever até 17 de junho. Não haverá inscrições no local do evento. Detalhes:  www.intercomsudeste2013.com.br
 

AS VANTAGENS DAS UNIVERSIDADES BRASILEIRAS 

 

Depois de participar, no início desta semana, de seminário que tratou de temas como a interdisciplinaridade em instituições americanas e brasileiras – promovido pela Reitoria e realizado pelo Ieat –, o pesquisador John Aubrey Douglass, da Universidade da Califórnia em Berkeley (na foto, extraída do portal da universidade) concedeu entrevista ao Portal UFMG em que aborda o sucesso do sistema universitário americano, baseado, entre outros aspectos, na ênfase dos collegescomo provedores de formação que antecede a escolha da profissão e como vetores de desenvolvimento regional.

O coordenador do Centro de Estudos em Educação Superior, de Berkeley, falou também do Brasil – “o país e suas universidades de pesquisa são líderes mundiais em potencial” – e sobre consórcio internacional de instituições que busca aperfeiçoar a experiência dos estudantes.

Quais são os principais conceitos e características do modelo de colleges nos Estados Unidos, e seus principais benefícios?


A partir do final do século 19, os colleges e um grupo emergente de universidades reconceberam a educação superior em uma série de aspectos. Em primeiro lugar, os Estados Unidos tornaram-se a primeira nação a estabelecer uma meta e atingir o ensino superior de massa. Além disso, desenvolveu-se a ideia de que os estudantes precisavam de exposição ampla a disciplinas novas e variadas, antes de se especializar em uma área ou profissão específica.

Outro aspecto relevante é que o modelo americano de universidade de pesquisa abraçou os ideais da integração da pesquisa ao currículo de pós-graduação, e a necessidade de liberdade acadêmica de que a Alemanha foi pioneira. Mas adicionou a isso a inclusão da graduação como parte de uma comunidade acadêmica mais ampla, e o propósito primeiro da universidade passou a ser a mobilidade socioeconômica e o desenvolvimento econômico regional.

E qual é a ideia básica dos colleges comunitários?


O foco das universidades de pesquisa no ensino, na pesquisa e no serviço público – essencialmente para atender as necessidades da sociedade – levou à criação de outros tipos de instituições que deveriam atender a demanda pública pelo acesso à educação superior. Isso inclui a ideia de college comunitário, que prevê um programa de dois anos e o acúmulo de créditos que permite ao estudante, por exemplo, transferir-se no terceiro ano para um campus como o de Berkeley. Oscolleges comunitários também oferecem programas vocacionais e educação de adultos.

Essas são apenas algumas das características do sistema americano – a meta da educação superior de massa, instituições com missões diferentes, o sistema de transferência de créditos e o compromisso de apoiar mobilidade socioeconômica e desenvolvimento regional. Em suma, os Estados Unidos construíram uma rede decolleges e universidades ao longo de mais de 150 anos, e com tremendo sucesso.

Levou muito tempo para criarmos sistemas consistentes de educação superior, organizados no âmbito estadual e com apoio limitado do governo federal. Recentemente, outros países, respeitando suas particularidades culturais e políticas, têm adotado aspectos desse sistema, com aumento dramático dos índices de resultados e impactos muito positivos sobre as economias regionais.

Países como a China têm adotado modelos similares? Como têm sido essas experiências?


De modo geral, a China tem avançado muito não apenas em relação a acesso e índices de graduação, mas também no aperfeiçoamento de suas instituições. É um fenômeno muito recente – lembro que, no início dos anos de 1990, contavam-se nos dedos os programas de doutorado, em todo o país, e eram de qualidade duvidosa.

Existem também restrições de ordem política e cultural que impõem grandes desafios ao sistema de ensino superior da China, além de restrições significativas quanto a liberdade acadêmica e grande fragilidade na qualidade da pesquisa, particularmente nas ciências sociais e humanas. Entretanto, considerando que a China tem percorrido longas distâncias e em alta velocidade, a história do país na educação superior é positiva, e terá influência importante na criação de uma sociedade mais aberta e igualitária.

Qual a sua visão do momento atual das universidades brasileiras?


O Brasil e suas universidades que realizam pesquisa de ponta são líderes mundiais em potencial, e com uma série de vantagens que muitas outras economias “em desenvolvimento” (incluindo outros membros dos Brics) não possuem. Refiro-me, por exemplo, ao compromisso com a liberdade acadêmica e a uma tradição de pesquisa acadêmica e educação profissional que promete levar a aumento significativo na produtividade em pesquisa e alta qualidade da pós-graduação.

A variável-chave é a forma como o país vai lidar com a missão de criar um sistema de educação superior de massa. Se a opção for simplesmente continuar a sobrecarregar universidades federais e muitas das estaduais com rápido crescimento das matrículas, o país vai retardar significativamente seu caminho para a qualidade de sua educação superior.

Se, por outro lado, a nação e os principais estados decidem repensar a situação atual e construir instituições alternativas, com missões distintas – como de ensino intensivo ou com foco vocacional –, conseguirão, de forma mais efetiva, fortalecer a rede de universidades de pesquisa de alta produtividade.

O senhor coordena um consórcio de universidades de ponta, voltado para os estudantes. Quais são as motivações e as metas desse trabalho?


O Student Experience in the Research University Consortium (Consórcio Experiência do Estudante na Universidade de Pesquisa), o Seru, reúne 23 universidades americanas de ponta, incluindo Berkeley, e agora nove instituições estrangeiras, como a Unicamp.

Nosso objetivo é saber mais sobre quem são nossos alunos e melhorar suas experiências e os efeitos dessas experiências – para apoiar o que chamamos de uma cultura de aprimoramento pessoal entre os estudantes dessas instituições.

Como funciona o trabalho do grupo?


Cada instituição mantém uma equipe no Centro de Estudos em Educação Superior, em Berkeley, para administrar pesquisas com estudantes do primeiro ano de graduação. É um survey online que todos os estudantes devem responder e inclui questões gerais a respeito dos campi das universidades-membros e perguntas customizadas.

Estamos gerando um rico banco de dados que as universidades utilizam para rever e aperfeiçoar programas acadêmicos, sistemas de admissão etc. Alguns dos tópicos sobre os quais estamos debruçados são efeitos de aprendizado, engajamento dos alunos em pesquisa, e suas expectativas e graus de satisfação.

Ao mesmo tempo em que os dados obtidos compõem uma base sólida para o Consórcio, estamos compartilhando boas práticas em nossos esforços para aprimorar a experiência educacional dos estudantes, promovemos encontros e eventos, e estimulamos diversas formas de colaboração.

As universidades de pesquisa enfrentam muitos desafios, e o nosso modelo, em que um grupo seleto de instituições gera dados e conversa sobre o que faz bem e o que precisa trabalhar melhor, tem se mostrado extremamente frutífero. (Itamar Rigueira Jr. no Jornal do Professor)

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