Um consumidor recebe, em média, três mil mensagens publicitárias por dia e revisa 11 fontes de informação antes de efetuar uma compra, ante apenas cinco fontes consultadas em 1995. Como fazer esse comprador prestar atenção em uma marca específica no ponto de venda, quando ele tem cada vez menos tempo disponível para a compra e está cada vez mais saturado de publicidade? As respostas têm sido dadas por agências de shopper marketing, especializadas em estratégias para o PDV – seja ele físico ou virtual.
Marcas como Coca-Cola, P&G, Unilever
e Nestlé são algumas das que têm destinado parte da verba de marketing para a
disciplina, cujo foco é reforçar ou reverter comportamentos de compra. Isso é
feito a partir de uma combinação de coleta de dados e de observação.“Shopper
marketing é uma combinação de pesquisa e de observação.
Usamos câmeras, olhamos as pessoas
comprarem e analisamos como elas fazem a aquisição dos produtos”, detalha Peter
Lidgey, CEO da Visual Latina de Londres, agência de shopper marketing fundada
em Buenos Aires e responsável pelas ações de Coca-Cola no mundo relacionadas à
disciplina.
O tema é relativamente novo. A
nomenclatura surgiu em 1999, nos Estados Unidos, o maior mercado consumidor do
mundo, mas ganhou força em 2002, com a P&G. “A marca trabalhava de forma
muito forte com branding e alguém disse: ‘Há uma nova audiência.
O shopper’. Até então, o trade marketing
pensava no consumidor, as marcas, no branding, mas ninguém pensava no
comprador, aquele que faz a aquisição do produto no ponto de venda”, explica
Lidgey, diferenciando consumidor e shopper entre o que consome o produto e o
que de fato compra.
Dos Estados Unidos a disciplina avançou
para a Europa Ocidental e começou a popularizar-se pela rápida conversão do
investimento em vendas. “Shopper marketing está totalmente relacionado às
finanças. Qualquer coisa que se fizer no ambiente de varejo poderá ser sentida
nas vendas”, analisa o executivo.
No Brasil, a disciplina ainda recebe
poucos investimentos, mas atrai empresas que veem potencial de crescer aqui. A
primeira agência especializada a chegar no país foi a Saatchi & Saatchi X,
ligada ao Grupo Publicis, que abriu seu escritório local no final de 2011.
“Viemos para desenvolver o mercado.
Ele está em estágio de amadurecimento,
com empresas estudando como se diferenciar para o consumidor na hora da
compra”, diz Regis Duarte, diretor da S&S X para o Brasil e Argentina.
A agência atende a P&G há 15 anos
para ações de shopper marketing e, no Brasil, tem também Sustagen Kids e C&C.
Segundo Duarte, o mercado brasileiro ainda é pequeno, mas cada vez mais
varejistas e marcas entendem que precisam melhorar a experiência no ponto de
venda.
“A indústria sabe que muito da decisão
de compra é tomada no PDV e que é necessário criar soluções para melhorar a
experiência e aumentar volume de vendas”, afirma.
A própria Visual Latina, há 22 anos no
mercado, somente trouxe uma operação para o Brasil em meados do ano passado. A
companhia “está onde a Coca-Cola está”, com escritórios nos Estados Unidos,
México, Inglaterra, Argentina e Brasil, mas aproveitou sua presença em grandes
mercados para angariar novos clientes.
No país, ela atende Diageo, Kellogs,
BRF, Melitta e Unilever. “Não é fácil entrar em um mercado como o Brasil. Vir
para cá dependia de encontrar as pessoas certas”, resume Luis Escobar, CEO da
operação local.
No início do mês, foi a vez do Grupo
Newcomm anunciar a vinda de sua própria agência especializada na área. A
Labstore, fundada em Madrid, em 2001, será mais uma companhia do WPP no país.
“Estamos pensando na região há mais de um ano e a equipe está praticamente
montada”, afirma Marcos Quintela, sócio do Grupo Newcomm e CEO da Y&R
Brasil.
A Telefônica é um dos clientes-chave da
agência na Espanha e também deve ter um peso importante na unidade brasileira,
que começa a operar no segundo semestre.
Compras irracionais
Dados do mercado apontam que 80% das
decisões de compra são emocionais e que 70% das compras são decididas no ato da
aquisição. Por isso, o papel de varejistas e marcas é “ajudar o shopper a tomar
uma decisão”, afirmam agências de shopper marketing.
O auxílio é possível a partir do
entendimento da jornada de compra de determinado produto. “Mapeamos categorias
de produtos, o comportamento de compra nessa categoria e recomendamos ações a
partir disso para quebrar ou reforçar um comportamento”, explica Duarte, da
S&S X.
O uso de smartphones com acesso à
internet tem alterado a forma como consumidores se comportam na hora de
comprar. Shoppers utilizam seus dispositivos para programarem a aquisição e, no
ponto de venda, para consultar preços e fazer a seleção final do que irá
adquirir.
Dados da F/Radar, monitoramento
semestral da F/Nazca S&S, mostram que, hoje, 36% dos consumidores utilizam
algum dispositivo móvel ou durante a compra ou para planejá-la. “A tecnologia
está influenciando os três momentos: o pré-shopping, o momento da compra e o
pós-shopping, em que há a experiência com o produto”, afirma Escobar, da Visual
Latina Brasil.
Reforçar ou quebrar comportamentos exige
entendimento mais apurado sobre os perfis de shoppers e das missões de compra.
“Nosso trabalho é ajudar o shopper nessa jornada e aumentarmos a conversão de
vendas”, resume Duarte. (Propmark)
POROBLEMAS COM A SAÚDE MENTAL DAS CRIANÇAS
(Texto de Elton Alisson, distribuído pela Agência FAPESP) –
O atendimento em saúde mental em todo o mundo está aquém do desejável.
E, mesmo em países com muitos recursos, como os Estados Unidos, ainda há várias
barreiras – como o estigma social dos transtornos mentais e a falta de
informação sobre a existência de tratamento – para possibilitar o acesso,
principalmente de crianças, aos serviços de apoio psicológico.
A avaliação foi feita
por Cristiane Seixas Duarte, professora do Departamento de Psiquiatria
Infanto-Juvenil da Columbia University, nos Estados Unidos, durante conferência
proferida na São Paulo School of Advanced Science for Prevention
of Mental Disorders (Y Mind) sobre o contexto e o desenvolvimento
da psicopatologia (estudo dos estados psíquicos relacionados ao sofrimento
mental) de crianças.
Promovida pela
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com a Universidade de
São Paulo (USP), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a
Universidade de Columbia, dos Estados Unidos, e o King’s College, da
Inglaterra, o evento, realizado no âmbito do Programa Escola São Paulo de
Ciência Avançada (ESPCA), da FAPESP, ocorreu entre 25 e 29 de março no campus
da Unifesp, em São Paulo.
Radicada nos Estados
Unidos há 13 anos, Duarte, que fez mestrado e doutorado com Bolsa da
FAPESP, participa de um estudo iniciado logo após os ataques terroristas de 11
de setembro de 2001, com o objetivo de avaliar os impactos psicológicos de um
evento traumático dessa magnitude em crianças.
A pesquisadora
destaca, em entrevista à Agência FAPESP, a necessidade de centrar o
foco em ações de prevenção e atendimento à saúde mental de crianças e jovens.
Mais de 75% dos transtornos mentais surgem na infância e na adolescência e,
quanto mais cedo diagnosticado o risco ou o surgimento de um problema de saúde
mental, maiores as chances de evitar sua progressão.
Agência FAPESP – Os países em
desenvolvimento apresentam maior prevalência de transtornos mentais?
Cristiane Seixas Duarte – O que verificamos – e isso ainda não está claro, porque não há estudo que tenha usado uma mesma metodologia para fazer essa comparação e os dados sobre número de pessoas com transtornos mentais em países como o Brasil são recentes – é que os países em desenvolvimento tendem a ter uma taxa maior de distúrbios mentais do que as nações desenvolvidas. Uma das hipóteses para explicar isso, que ainda não foi testada, é que os países em desenvolvimento apresentam maior prevalência de fatores de risco para o surgimento de transtornos mentais, como a violência. O atendimento à saúde mental, no entanto, está aquém do que seria desejável tanto nos países em desenvolvimento como nos desenvolvidos. Nos Estados Unidos, realizamos estudos em colaboração com pesquisadores da Noruega e da Finlândia e vimos que, mesmo em países com muitos recursos, ainda existem muitas barreiras para o atendimento à saúde mental, principalmente de crianças.
Agência FAPESP – Por que isso
ocorre?
Duarte – Pode ser
resultado de uma combinação de fatores, como o estigma social do problema de
saúde mental e o desconhecimento de que existem tratamentos muito eficientes
para a grande maioria dos distúrbios mentais. A falta de serviço de atendimento
à saúde mental também é um fator importante que contribui para esse cenário.
Agência FAPESP – Por que as
ações de prevenção e atendimento à saúde mental devem ser focadas em crianças e
adolescentes?
Duarte – Mais de 75%
dos transtornos mentais começam na infância ou até os 18 anos de idade – quando
o cérebro, a personalidade e as relações estão em desenvolvimento – e progridem
ao longo da vida. Isso não quer dizer que não se possa iniciar uma depressão
aos 40 anos, por exemplo, o que é bastante comum, principalmente em mulheres.
Mas a maioria dos casos de distúrbio mental se inicia muito antes disso.
Se conseguirmos ter alguma atuação de
atendimento à saúde mental realmente efetiva na infância, será possível
prevenir a grande maioria dos transtornos mentais. A tendência do senso comum é
achar que não é preciso se preocupar com a saúde mental das crianças, porque
estão em uma fase em que só brincam. Sabemos, no entanto, que o tratamento de
um distúrbio mental pode ser bastante efetivo se diagnosticado no início, antes
de o problema se tornar crônico.
Agência FAPESP – Que formas de
tratamento de crianças com distúrbios mentais existem atualmente?
Duarte – Há
estratégias farmacológicas eficientes, particularmente para o tratamento do
Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Mas também há
estratégias de psicoterapia relativamente breves que podem ajudar muito
crianças com outros tipos de transtornos mentais, principalmente se combinadas
com intervenções com os pais e se iniciadas cedo. Embora ainda exista muito
espaço para melhorar essas intervenções psicossociais e psicoterápicas e
torná-las mais eficientes e possíveis de serem incluídas nos sistemas de saúde,
elas têm se revelado muito promissoras.
A grande preocupação
é como facilitar o acesso a crianças que realmente precisam dessas estratégias.
Muitas delas não estão na escola e permanecem excluídas da maioria dos sistemas
de atendimento à saúde. Precisamos desenvolver estratégias para atender um
número cada vez maior de crianças.
Agência FAPESP – Uma pesquisa
divulgada recentemente pela Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária]
apontou que o uso de metifenidato [medicamento utilizado no tratamento de TDAH]
em crianças e adolescentes entre 6 e 16 anos no Brasil aumentou 75% no período
de 2009 a 2011. Isso também ocorreu nos Estados Unidos?
Duarte – Nos Estados
Unidos, o consumo de metifenidato para o tratamento de TDAH também tem
aumentado, mas muitas crianças que precisam do medicamento não o recebem e as
que não precisam o usam. A mensagem de que está se consumindo mais remédios
para tratamento de distúrbios mentais não significa, exatamente, uso abusivo.
Pode ser que as crianças que realmente poderiam se beneficiar do uso desse
medicamento não estão tendo acesso a ele.
Agência FAPESP – Há diferenças
de tipos de distúrbios mentais apresentados por crianças e adolescentes de
países em desenvolvimento em comparação com as de países desenvolvidos?
Duarte – De maneira
geral, os dados que temos até agora mostram que a estrutura dos transtornos
mentais apresentados por crianças e adolescentes tanto de países desenvolvidos
como em desenvolvimento parece ser muito semelhante. Mas há também diferenças
importantes em relação a como os sintomas da depressão em crianças, por
exemplo, são avaliados.
Há países que tendem
a “psicologizar” a depressão e enfatizar mais os sintomas cognitivos e
emocionais. Outros privilegiam mais os sintomas físicos, como fadiga e insônia,
do que os mentais. A forma como os sintomas de um distúrbio mental se moldam
podem variar de cultura, país, contexto e classe social. Não sabemos muito bem
a quantidade de variações. Seria necessário um estudo usando a mesma
metodologia, em diferentes regiões, e isso ainda não foi feito com crianças.
Agência FAPESP – A senhora
participa de um estudo que acompanha a trajetória de vida de crianças do
condado do Bronx, em Nova York, e de Porto Rico. Há diferenças significativas
entre eles?
Duarte – Esse estudo
já tem muitos resultados, porque seguimos essas crianças quando elas tinham
entre 5 e 13 anos e agora estamos acompanhando o início de sua fase adulta.
Observamos que, na infância, tanto no Bronx como em Porto Rico, meninos e
meninas têm problemas de saúde mental mais ou menos parecidos.
Conforme evoluem,
porém, as crianças do Bronx ficam piores. Uma das hipóteses para explicar isso
é que, em Porto Rico, apesar da pobreza e falta de serviços básicos, não existe
um fator importante para o desenvolvimento de transtornos mentais: a
discriminação social, que faz com que as pessoas sintam que não pertencem a um
determinado grupo.
Nossa interpretação é
que algum fator associado a isso pode ser muito importante para o
desenvolvimento de transtornos mentais, com outras questões, como o suporte
familiar. Em Porto Rico as famílias são mais intactas; já no Bronx, em mais de
40% das famílias, não há a presença do pai.
Todos esses fatores
contribuem para o desenvolvimento de transtornos mentais. Fizemos um
estudo-piloto com jovens entre 16 e 25 anos dessas duas regiões e constatamos
que 40% têm pelo menos um filho que também faz parte de uma população de risco
de desenvolvimento de transtorno mental. Precisamos entender como os
transtornos mentais evoluem de geração para geração para podermos prevenir os
riscos desde o início e tentarmos mudar as trajetórias de saúde mental dessas
pessoas.
Agência FAPESP – A senhora
também participa de uma pesquisa, iniciada logo após os ataques terroristas de
11 de setembro de 2001, para avaliar os impactos psicológicos de um evento
traumático dessa magnitude em crianças que vivem em Nova York. Quais os
possíveis desdobramentos desse trabalho?
Duarte – Seis meses
depois do 11 de setembro, avaliamos 8 mil crianças que estavam não apenas
próximas do Ground Zero – o local onde ficava o World Trade
Center –, mas em diferentes lugares da cidade. Observamos que elas apresentavam
diferentes tipos de transtorno, não apenas o transtorno de estresse
pós-traumático.
Agora, continuamos a seguir uma amostra dessas
crianças para analisar o que ocorre na fase adulta, em termos de saúde mental.
A ideia é verificar se elas se tornarão pessoas mais temerosas em relação à
vida ou, pelo contrário, vão ser mais resilientes e tentarão se posicionar no
mundo da maneira mais positiva possível, que é outro tipo de reação apresentado
por quem viveu um evento traumático.
Como, infelizmente,
episódios dessa magnitude podem acontecer de novo, se soubermos um pouco mais
quais são as possíveis trajetórias da saúde mental das pessoas atingidas,
direta ou indiretamente, poderemos ajudá-las o mais cedo possível a evitar
desenvolver problemas graves de saúde mental. Por outro lado, seguir essas
crianças ao longo do tempo abre uma perspectiva muito importante para realmente
aprender sobre a evolução dos transtornos mentais, que são doenças crônicas.
Quando analisadas em
um só ponto no tempo, o aprendizado sobre elas se torna muito limitado. Se
pudermos seguir e verificar como as condições de saúde mental se desenrolam
durante as trajetórias de vida e quais são os problemas mais específicos que
surgem, poderemos melhorar as estratégias de intervenção clínica.
Agência FAPESP – Quais os
principais desafios para a realização de estudos de longa duração como esses,
com crianças do Bronx, de Porto Rico e das afetadas pelo 11 de Setembro?
Duarte – É preciso
seguir um grande número de participantes por muito tempo, sem perder o contato
com eles e ter certeza de que estão sempre engajadas no estudo, e tudo isso é
muito caro. Por isso, não existem muitos estudos desse tipo no mundo, mas o
Brasil precisa ter um. Há estudos desse gênero na área da saúde, em geral, mas
não em saúde mental. Existem vários estudos do gênero na área de saúde mental
nos Estados Unidos, mas o que realizamos com porto-riquenhos, por exemplo, até
agora é o único com foco em latinos.
Agência FAPESP – Como a
senhora avalia os impactos do Project Liberty, implementado pelo governo dos
Estados Unidos logo após o 11 de Setembro, com o intuito de oferecer
atendimento psicológico gratuito às pessoas afetadas pelos ataques terroristas
ao World Trade Center?
Duarte – O fato de o
programa ter possibilitado o acesso gratuito ao atendimento em saúde mental –
que nos Estados Unidos é pago e caro – teve um impacto positivo. Mesmo com essa
iniciativa, o uso de serviços de saúde mental por crianças que foram atingidas
pelo 11 de Setembro e que desenvolveram transtornos mentais ficou abaixo do
necessário, conforme demonstrou uma pesquisa de doutorado, realizada por uma
estudante brasileira no nosso grupo na Columbia University, que em breve será
publicada.
Isso mostra que, além
de excluir a barreira do pagamento, talvez precisemos eliminar outros
empecilhos em nossas estratégias para facilitar o acesso ao atendimento à saúde
mental, como o estigma dos transtornos mentais e a desinformação em relação à
existência de tratamento.
Agência FAPESP – Que
estratégias o Brasil poderia adotar para melhorar o atendimento à saúde mental
de crianças e adolescentes?
Duarte – Conduzimos um estudo em parceria com pesquisadores brasileiros em Itaboraí, cidade com 200 mil habitantes a uma hora do Rio de Janeiro.
Duarte – Conduzimos um estudo em parceria com pesquisadores brasileiros em Itaboraí, cidade com 200 mil habitantes a uma hora do Rio de Janeiro.
O objetivo foi
prevenir comportamentos sexuais de risco, como o sexo desprotegido, mais
prevalentes em adolescentes com problemas de saúde mental. Para isso, fizemos
intervenções em três diferentes tipos de serviços comuns ao resto do país: os
Centros de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenis (CAP Sis), os ambulatórios de
saúde mental – que representam uma estratégia mais tradicional de atendimento à
saúde mental – e o Programa Saúde da Família, uma estratégia de atendimento à saúde
primária que cobre aproximadamente 50% da população brasileira.
Como o próprio British
Medical Journal destacou em artigo publicado recentemente, esse
programa representa uma estratégia brasileira de atendimento à saúde na qual o
mundo deveria prestar atenção. Em minha forma de pensar a saúde mental, com
grande ênfase na interação com a saúde pública, esse programa também pode ser
bastante valioso para identificar crianças com problemas de saúde mental e
realizar intervenções básicas para casos mais leves, porque os agentes de saúde
são responsáveis por atender um determinado número de famílias de uma área
geográfica.
Por morar na mesma
comunidade que essas famílias, os agentes de saúde estabelecem com elas
relações de longo prazo e podem se deslocar facilmente para fazer qualquer tipo
de atendimento e acompanhar o quadro de saúde das pessoas dentro de suas
próprias casas. Isso, em termos de acesso às pessoas, não tem preço.
Agência FAPESP – Nesse
sentido, qual seria o papel dos profissionais de saúde mental para auxiliar
esses agentes de saúde a identificar crianças com problemas de saúde mental?
Duarte – Nossa
responsabilidade, como profissionais de saúde mental, é orientar esses agentes
de saúde que estão na linha de frente para fazer a identificação, triagem e
mesmo o atendimento dos casos mais simples. Sabemos que isso é possível, desde
que esses profissionais tenham o mínimo de treinamento adequado. Não temos a
ilusão de que são os psicólogos, psiquiatras e, muito menos, os psiquiatras
infantis, que irão atender essa demanda.
Quem terá de fazer a
maior parte desse trabalho são os profissionais que estão na linha de frente do
atendimento à saúde, como enfermeiras, médicos e até agentes do Programa de
Saúde da Família. Esses profissionais podem nos auxiliar no sentido de não
diagnosticar um problema de saúde mental, mas identificar uma situação em que claramente
há um contexto de risco de desenvolvimento de transtorno mental em que
precisamos agir.
Há trabalhos que
mostram, por exemplo, que a visita continuada de uma enfermeira a uma mãe nos
primeiros meses após o término da gravidez pode contribuir para diminuir o
risco de desenvolvimento de comportamentos agressivos e de depressão pós-parto.
CICLO
SOBRE GESTÃO ESCOLAR
O Curso de Pedagogia Unesp/Univesp, polo
Sorocaba, organiza o Ciclo Teórico Prático em Gestão Escolar. As atividades vão
de 6 de abril a 8 de junho, aos sábados, às 9h.
O curso é
conduzido pela Unesp em parceria com a Univesp. O objetivo é ampliar as
discussões dos profissionais da educação a respeito da organização e da gestão
do trabalho na escola pública.
Os temas
abordados nessa edição do Ciclo foram sugeridos pelos alunos do curso, que são
professores da rede pública e privada de Sorocaba e região. Assim, além de
contemplar conteúdos que fazem parte do currículo do Curso de Pedagogia, os
encontros também apontam as preocupações e as necessidades teórico-práticas que
fazem parte do cotidiano escolar dos docentes.
Segundo os
organizadores, as atividades buscam refletir sobre a organização da escola
pública sob a ótica da autonomia e das possibilidades de estruturar-se à luz de
um projeto político-pedagógico próprio e discutir aspectos da ação
administrativa na escola, enquanto instituição integrante de um sistema amplo,
altamente impregnado da estrutura formal-legal.
O curso
será realizado na Unesp de Sorocaba, Av. Três de Março nº 511, Alto da Boa
Vista. Detalhes no www.unesp.br/portal#!/noticia/10542/unesp-univesp-organiza-ciclo-sobre-gestao-escolar.
18º CONGRESSO
DE CIÊNCIA DA COMUNICAÇÃO
Abertas as inscrições para o 18º Congresso
de Ciência da Comunicação na Região Sudeste, o Intercom Sudeste, que este ano
ocorrerá entre 3 e 5 de julho na Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação
da Unesp.
Voltado a
acadêmicos, graduados, pós-graduados, estudantes de especialização, mestrandos,
doutorandos, professores e profissionais de Comunicação e áreas afins, o evento
terá como tema de debate “Comunicação em tempo de redes sociais: afetos,
emoções, subjetividades”.
A proposta,
segundo os organizadores, é debater “como, em uma conjuntura marcada pela
impessoalidade, padronização e tecnicismo da comunicação massiva, as redes
sociais catalisam afetos, emoções e subjetividades, usando as novas tecnologias
de difusão simbólica para resgatar o humanismo”.
O congresso
busca prestigiar a atuação de alunos de graduação e recém-graduados na produção
científica nos diversos campos da comunicação e possibilitar a apresentação de
pesquisas empíricas ou estudos aplicados nas seguintes áreas: Jornalismo,
Publicidade e Propaganda, Relações Públicas e Comunicação Organizacional,
Comunicação Audiovisual, Comunicação Multimídia, Interfaces Comunicacionais,
Comunicação, Espaço e Cidadania e Estudos Interdisciplinares da Comunicação.
Em paralelo
à Intercom Sudeste, ocorrerá o prêmio Expocom, que oferece troféus aos melhores
trabalhos de estudantes da graduação e recém-graduados, e o Intercom Júnior, um
espaço acadêmico idealizado para receber artigos escritos durante a graduação.
Para os
interessados em apresentar seus trabalhos, a data-limite para pagamento da
inscrição é 15 de maio. Já os que quiserem participar do congresso como
ouvintes podem se inscrever até 17 de junho. Não haverá inscrições no local do
evento. Detalhes: www.intercomsudeste2013.com.br
AS VANTAGENS
DAS UNIVERSIDADES BRASILEIRAS
Depois de participar, no início desta
semana, de seminário que tratou de temas como a interdisciplinaridade em instituições
americanas e brasileiras – promovido pela Reitoria e realizado pelo Ieat –, o
pesquisador John Aubrey Douglass, da Universidade da Califórnia em Berkeley (na
foto, extraída do portal da universidade) concedeu entrevista ao
Portal UFMG em que aborda o sucesso do sistema universitário americano,
baseado, entre outros aspectos, na ênfase dos collegescomo
provedores de formação que antecede a escolha da profissão e como vetores de
desenvolvimento regional.
O coordenador do Centro de Estudos em
Educação Superior, de Berkeley, falou também do Brasil – “o país e suas
universidades de pesquisa são líderes mundiais em potencial” – e sobre
consórcio internacional de instituições que busca aperfeiçoar a experiência dos
estudantes.
Quais são os principais conceitos e
características do modelo de colleges nos Estados Unidos, e
seus principais benefícios?
A partir do final do século 19, os colleges e
um grupo emergente de universidades reconceberam a educação superior em uma
série de aspectos. Em primeiro lugar, os Estados Unidos tornaram-se a primeira
nação a estabelecer uma meta e atingir o ensino superior de massa. Além disso,
desenvolveu-se a ideia de que os estudantes precisavam de exposição ampla a
disciplinas novas e variadas, antes de se especializar em uma área ou profissão
específica.
Outro aspecto relevante é que o modelo
americano de universidade de pesquisa abraçou os ideais da integração da
pesquisa ao currículo de pós-graduação, e a necessidade de liberdade acadêmica
de que a Alemanha foi pioneira. Mas adicionou a isso a inclusão da graduação
como parte de uma comunidade acadêmica mais ampla, e o propósito primeiro da
universidade passou a ser a mobilidade socioeconômica e o desenvolvimento
econômico regional.
E qual é a ideia básica dos colleges comunitários?
O foco das universidades de pesquisa no
ensino, na pesquisa e no serviço público – essencialmente para atender as
necessidades da sociedade – levou à criação de outros tipos de instituições que
deveriam atender a demanda pública pelo acesso à educação superior. Isso inclui
a ideia de college comunitário, que prevê um programa de dois
anos e o acúmulo de créditos que permite ao estudante, por exemplo,
transferir-se no terceiro ano para um campus como o de Berkeley. Oscolleges comunitários
também oferecem programas vocacionais e educação de adultos.
Essas são apenas algumas das características do sistema americano – a meta da educação superior de massa, instituições com missões diferentes, o sistema de transferência de créditos e o compromisso de apoiar mobilidade socioeconômica e desenvolvimento regional. Em suma, os Estados Unidos construíram uma rede decolleges e universidades ao longo de mais de 150 anos, e com tremendo sucesso.
Essas são apenas algumas das características do sistema americano – a meta da educação superior de massa, instituições com missões diferentes, o sistema de transferência de créditos e o compromisso de apoiar mobilidade socioeconômica e desenvolvimento regional. Em suma, os Estados Unidos construíram uma rede decolleges e universidades ao longo de mais de 150 anos, e com tremendo sucesso.
Levou muito tempo para criarmos
sistemas consistentes de educação superior, organizados no âmbito estadual e
com apoio limitado do governo federal. Recentemente, outros países, respeitando
suas particularidades culturais e políticas, têm adotado aspectos desse
sistema, com aumento dramático dos índices de resultados e impactos muito
positivos sobre as economias regionais.
Países como a China têm adotado modelos
similares? Como têm sido essas experiências?
De modo geral, a China tem avançado
muito não apenas em relação a acesso e índices de graduação, mas também no aperfeiçoamento
de suas instituições. É um fenômeno muito recente – lembro que, no início dos
anos de 1990, contavam-se nos dedos os programas de doutorado, em todo o país,
e eram de qualidade duvidosa.
Existem também restrições de ordem
política e cultural que impõem grandes desafios ao sistema de ensino superior
da China, além de restrições significativas quanto a liberdade acadêmica e
grande fragilidade na qualidade da pesquisa, particularmente nas ciências
sociais e humanas. Entretanto, considerando que a China tem percorrido longas
distâncias e em alta velocidade, a história do país na educação superior é
positiva, e terá influência importante na criação de uma sociedade mais aberta
e igualitária.
Qual a sua visão do momento atual das
universidades brasileiras?
O Brasil e suas universidades que
realizam pesquisa de ponta são líderes mundiais em potencial, e com uma série
de vantagens que muitas outras economias “em desenvolvimento” (incluindo outros
membros dos Brics) não possuem. Refiro-me, por exemplo, ao compromisso com a
liberdade acadêmica e a uma tradição de pesquisa acadêmica e educação
profissional que promete levar a aumento significativo na produtividade em
pesquisa e alta qualidade da pós-graduação.
A variável-chave é a forma como o país
vai lidar com a missão de criar um sistema de educação superior de massa. Se a
opção for simplesmente continuar a sobrecarregar universidades federais e
muitas das estaduais com rápido crescimento das matrículas, o país vai retardar
significativamente seu caminho para a qualidade de sua educação superior.
Se, por outro lado, a nação e os
principais estados decidem repensar a situação atual e construir instituições
alternativas, com missões distintas – como de ensino intensivo ou com foco
vocacional –, conseguirão, de forma mais efetiva, fortalecer a rede de
universidades de pesquisa de alta produtividade.
O senhor coordena um consórcio de
universidades de ponta, voltado para os estudantes. Quais são as motivações e
as metas desse trabalho?
O Student Experience in the Research
University Consortium (Consórcio Experiência do Estudante na Universidade de
Pesquisa), o Seru, reúne 23 universidades americanas de ponta, incluindo
Berkeley, e agora nove instituições estrangeiras, como a Unicamp.
Nosso objetivo é saber mais sobre quem
são nossos alunos e melhorar suas experiências e os efeitos dessas experiências
– para apoiar o que chamamos de uma cultura de aprimoramento pessoal entre os
estudantes dessas instituições.
Como funciona o trabalho do grupo?
Cada instituição mantém uma equipe no
Centro de Estudos em Educação Superior, em Berkeley, para administrar pesquisas
com estudantes do primeiro ano de graduação. É um survey online
que todos os estudantes devem responder e inclui questões gerais a respeito dos
campi das universidades-membros e perguntas customizadas.
Estamos gerando um rico banco de dados
que as universidades utilizam para rever e aperfeiçoar programas acadêmicos,
sistemas de admissão etc. Alguns dos tópicos sobre os quais estamos debruçados
são efeitos de aprendizado, engajamento dos alunos em pesquisa, e suas
expectativas e graus de satisfação.
Ao mesmo tempo em que os dados obtidos
compõem uma base sólida para o Consórcio, estamos compartilhando boas práticas
em nossos esforços para aprimorar a experiência educacional dos estudantes,
promovemos encontros e eventos, e estimulamos diversas formas de colaboração.
As universidades de pesquisa enfrentam
muitos desafios, e o nosso modelo, em que um grupo seleto de instituições gera
dados e conversa sobre o que faz bem e o que precisa trabalhar melhor, tem se
mostrado extremamente frutífero. (Itamar
Rigueira Jr. no Jornal do Professor)
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