AUDITORIA DA COMUNICAÇÃO
AS PALAVRAS
“Está em curso um processo de
juvenização no mercado, tanto nas agências como nos anunciantes. E isso é muito
bobinho. Se existe uma coisa que não dá para estabelecer é qual a faixa etária
ideal de um bom funcionário. Tem gente brilhante muito nova e gente brilhante
com muita idade. Aliás, o grande patrimônio da minha vida sempre foi ter amigos
10 anos mais velhos. É a melhor maneira de aprender.” Washinton
Olivetto)
HOJE CEDO MEU ESPAÇO PARA LHE DAR A CHANCE DE CURTIR ESTE TEXTO
BRILHANTE, ENVIADO PELO MEU AMIGO CHICO SOCORRO
Caí no Mundo e não sei como Voltar...
Autoria
atribuída a Eduardo Galeano, jornalista
uruguaio, escritor de “As
Veias Abertas da América Latina”.
O que acontece comigo, que
não consigo andar pelo mundo pegando coisas
e
trocando-as pelo modelo seguinte,
só
porque alguém adicionou uma nova função ou a diminuiu um pouco?
Não faz muito, com minha mulher, lavávamos as fraldas dos
filhos,
pendurávamos no varal junto com outras roupinhas, passávamos,
dobrávamos e as preparávamos para que voltassem a serem
sujas.
E eles, nossos nenês, apenas cresceram, tiveram seus próprios
filhos
e se encarregaram de atirar tudo fora, incluindo as fraldas.
Entregaram-se, inescrupulosamente, às descartáveis!
Sim, já sei.
À nossa geração sempre foi difícil jogar fora.
Nem os defeituosos conseguíamos descartar!
E, assim, andamos pelas ruas, guardando o muco no lenço de
tecido, de bolso.
Nããão!
Eu não digo que isto era melhor.
O que digo é que, em algum momento, eu me distraí, caí
do mundo e,
agora, não sei por onde se volta.
O mais provável é que o de agora esteja bem, isto não discuto.
O mais provável é que o de agora esteja bem, isto não discuto.
O que acontece é que não consigo trocar os instrumentos
musicais uma vez por ano,
o celular a cada três meses ou o monitor do computador por
todas as novidades.
Guardo os copos descartáveis!
Lavo as luvas de látex que eram para usar uma só vez.
Os talheres de plástico convivem com os de aço inoxidável na
gaveta dos talheres!
É que venho de um tempo em que as coisas eram compradas para
toda a vida!
É mais!
Compravam-se para a vida dos que vinham depois!
A gente herdava relógios de parede, jogos de copas, vasilhas
e até bacias de louça.
E acontece que em nosso, nem tão longo casamento,
tivemos mais cozinhas do que as que haviam em todo o bairro
em minha infância,
e trocamos de refrigerador três vezes.
Nos estão incomodando!
Eu descobri!
Fazem de propósito!
Tudo se lasca, se gasta, se oxida,
se quebra ou se consome em pouco tempo para que possamos
trocar.
Nada se arruma, não se conserta.
O obsoleto é de fábrica.
Aonde estão os sapateiros fazendo meia - solas dos tênis
Nike?
Alguém viu algum colchoeiro encordoando colchões, casa por
casa?
Quem arruma as facas elétricas: o afiador ou o eletricista?
Haverá teflon para os funileiros ou assentos de aviões para
os seleiros?
Tudo se joga fora, tudo se descarta e, entretanto, produzimos
mais e mais e mais lixo.
Outro dia, li que se produziu mais lixo nos últimos 40 anos
que em toda a história da humanidade.
Quem tem menos de 30 anos não vai acreditar: quando eu era
pequeno,
pela minha casa não passava o caminhão que recolhe o lixo!
Eu juro!
E tenho menos de ... anos!
Todos os descartáveis eram orgânicos e iam parar no
galinheiro,
aos patos ou aos coelhos (e não estou falando do século
XVII).
Não existia o plástico, nem o nylon.
A borracha só víamos nas rodas dos carros e, as que não
estavam rodando,
as queimávamos na Festa de São João.
Os poucos descartáveis que não eram comidos pelos animais,
serviam de adubo ou se queimava.
Desse tempo venho eu.
E não que tenha sido melhor...
É que não é fácil para uma pobre pessoa,
que educaram com "guarde e guarde que alguma vez pode
servir para alguma coisa",
mudar para o "compre e jogue fora
que já tem um novo modelo".
Troca-se de carro a cada 3 anos, no máximo, por que, caso
contrário, és um pobretão.
Ainda que o carro que tenhas esteja em bom estado...
E precisamos viver endividados, eternamente, para pagar o
novo!!!
Mas... por amor de Deus!
Minha cabeça não resiste tanto.
Agora, meus parentes e os filhos de meus amigos não só trocam
de celular uma vez por semana,
como, além disto, trocam o número, o endereço eletrônico e,
até, o endereço real.
E a mim que me prepararam para viver com o mesmo número,
E a mim que me prepararam para viver com o mesmo número,
a mesma mulher,
a mesma e o mesmo nome?
Educaram-me para guardar tudo.
Tuuuudo!
O que servia e o que não servia.
Porque, algum dia, as coisas poderiam voltar a servir.
Acreditávamos em tudo.
Acreditávamos em tudo.
Sim , já sei, tivemos um grande problema:
nunca nos explicaram que coisas poderiam servir e que coisas
não.
E no afã de guardar (por que éramos de acreditar),
guardávamos até o umbigo de nosso primeiro filho, o dente do
segundo,
os cadernos do jardim de infância e não sei como não
guardamos o primeiro cocô.
Como querem que entenda a essa gente que se descarta de seu celular
Como querem que entenda a essa gente que se descarta de seu celular
poucos meses depois de o comprar?
Será que quando as coisas são conseguidas tão facilmente,
não se valorizam e se tornam descartáveis com a mesma
facilidade com que foram conseguidas?
Em casa tínhamos um móvel com quatro gavetas.
Em casa tínhamos um móvel com quatro gavetas.
A primeira gaveta era para as toalhas de mesa e os panos de
prato,
a segunda para os talheres.
A terceira e a quarta para tudo o que não fosse toalha ou
talheres.
E guardávamos...
E guardávamos...
Como guardávamos!!
Tuuuudo!!!
Guardávamos as tampinhas dos refrigerantes!!!
Como, para quê?
Fazíamos capachos, colocávamos diante da porta para tirar o
barro dos sapatos.
Dobradas e enganchadas numa corda, se tornavam cortinas para
os bares.
Ao fim das aulas, lhes tirávamos a cortiça, as martelávamos
e as pregávamos em uma tabuinha para fazer instrumentos para
a festa de fim de ano da escola.
Tuuudo guardávamos!
Tuuudo guardávamos!
Enquanto o mundo espremia o cérebro para inventar isqueiros
descartáveis ao término de seu tempo, inventávamos a recarga para isqueiros
descartáveis.
E as Gillette até partidas ao meio se transformavam em
apontadores por todo o tempo escolar.
E nossas gavetas guardavam as chavezinhas das latas de
sardinhas ou de fiambre,
na possibilidade de que alguma lata viesse sem sua chave.
E as pilhas!
E as pilhas!
As pilhas dos primeiros radinhos transistores passavam
do congelador ao telhado da casa.
Por que não sabíamos bem se, se devia dar calor ou frio para
que durassem um pouco mais.
Não nos resignávamos que terminasse sua vida útil,
não podíamos acreditar que algo vivesse menos que um jasmim.
As coisas não eram descartáveis.
As coisas não eram descartáveis.
Eram guardáveis.
Os jornais!!!
Os jornais!!!
Serviam para tudo:
como de forro para as botas de borracha,
para por no piso nos dias de chuva e por sobre todas as
coisas para enrolar.
Às vezes sabíamos alguma notícia lendo o jornal tirado de um
embrulho de bananas.
E guardávamos o papel de alumínio dos chocolates e dos
cigarros para fazer guias de enfeites de natal,
e as páginas dos almanaques para fazer quadros,
e os conta-gotas dos remédios para algum medicamento que não
o trouxesse,
e os fósforos usados por que podíamos acender uma boca de
fogão
(Cosmopolita era a marca de um fogão que funcionava com gás)
desde outra que estivesse acesa,
e as caixas de sapatos se transformavam nos primeiros álbuns
de fotos
e os baralhos se reutilizavam, mesmo que faltasse alguma
carta,
com a inscrição a mão em um valete de espada que dizia
"esta é um 4 de paus".
As gavetas guardavam pedaços esquerdos de prendedores de roupa
As gavetas guardavam pedaços esquerdos de prendedores de roupa
e o ganchinho de metal.
Ao tempo esperavam somente pedaços direitos que esperavam a
sua outra metade,
para voltar outra vez a ser um prendedor completo.
Eu sei o que nos acontecia:
Eu sei o que nos acontecia:
custava-nos muito declarar a morte de nossos objetos.
Assim como hoje, as novas gerações decidem matá-los tão-logo
aparentem deixar de ser úteis.
Aqueles tempos eram de não se declarar nada morto: nem a Walt
Disney!!!
E quando nos venderam sorvetes em copinhos, cuja tampa se convertia em base, nos disseram:
E quando nos venderam sorvetes em copinhos, cuja tampa se convertia em base, nos disseram:
comam o sorvete e depois joguem o copinho fora!
E nós dizíamos que sim, mas, imagina que a lançávamos fora!!!
As colocávamos a viver na estante dos copos e das taças.
As latas de ervilhas e de pêssegos se transformavam em vasos
e até telefones.
As primeiras garrafas de plástico se transformaram em
enfeites de duvidosa beleza.
As caixas de ovos se converteram em depósitos de aquarelas,
as tampas de garrafões em cinzeiros,
as primeiras latas de cerveja em porta-lápis
e as rolhas de cortiça esperavam encontrar-se com uma
garrafa.
E me mordo para não fazer um paralelo entre os valores
E me mordo para não fazer um paralelo entre os valores
que se descartam e os que preservávamos.
Ah!!! Não vou fazer!!!
Morro por dizer que hoje não só os eletrodomésticos são
descartáveis;
também o casamento e até a amizade são descartáveis.
Mas não cometerei a imprudência de comparar objetos com
pessoas.
Mordo-me para não falar da identidade que se vai perdendo,
Mordo-me para não falar da identidade que se vai perdendo,
da memória coletiva que se vai descartando, do passado
efêmero.
Não vou fazer!
Não vou misturar os temas,
não vou dizer que ao eterno tornaram caduco
e ao caduco fizeram eterno.
Não vou dizer que aos velhos se declara a morte
quando apenas começam a falhar em suas funções,
que aos cônjuges se trocam por modelos mais novos,
que as pessoas a que lhes falta alguma função
se discrimina o que se valoriza aos mais bonitos,
com brilhos, com gel no cabelo e glamour.
Esta só é uma crônica que fala de fraldas e de celulares.
Esta só é uma crônica que fala de fraldas e de celulares.
Do contrário, se misturariam as coisas,
teria que pensar seriamente em entregar à bruxa,
como parte do pagamento de uma senhora com menos quilômetros
e alguma função nova.
Mas, como sou lento para transitar neste mundo da reposição,
corro o risco de que a bruxa me ganhe a mão e seja eu o
entregue...
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